30.4.15

Pouco depois das 19:30h, sai do metro e avança pela Rue Rambuteau. Pouco mais de dez minutos e chega ao centre culturel suisse. Feliz, daqui pouco comemorará o Dia Internacional do Jazz, ouvindo Jerry Léonide. Marie far-lhe-á companhia.

Flores, pedras esculpidas, gritos de crianças, raios de sol. Amigos.
Merci, Maria de' Medici.

Jardim do Luxemburgo, Darcy Rhyno

29.4.15

Bonjour!
Bem cedinho, un café sur les Champs-Elysées, na companhia de Julio. Mais tarde, sem pressas, há-de descer a Avenue Marceau e subir, mais uma vez, à Tour Eiffel. Fá-lo sempre para dar sorte, mesmo sabendo que terá de suportar as filas intermináveis de sorrisos orientais. Almoçará na Brasserie de L'Isle Saint Louis, paixão antiga. Reservou a tarde para visitar, com calma, a cathédrale Notre-Dame. Talvez encontre Quasimodo.


{Et la cathédrale ne lui était pas seulement la société, mais encore l'univers, mais encore toute la nature. 

Notre-Dame de Paris, Victor Hugo}

28.4.15

As malas estão prontas, aguardando aos pés da cama. O Príncipe, habituado às saídas fortuitas da costureira, não se incomoda, sabe que ela regressa sempre para si. A D. Lurdes virá encher-lhe a tigela.
Paris, je t'aime, sonha ela, dentro dos lençóis azul-turquesa.

27.4.15

Parecem tolas as andorinhas, D. Maria cogitava, sempre às reviravoltas, num chiadeiro interminável. Parecem felizes as andorinhas, Luisinha suspirava, piruetas de dança, gritos de amor indecifrável.

26.4.15

Desde menina, Joaninha sempre julgou que, se alguma vez perdesse o grande amor da sua vida, cairia de cama. Ninguém lhe explicou que isso era nos filmes. Na vida, os abandonados continuam a levantar-se e a suportar a banalidade dos dias, carregando a dor e a desilusão. 

24.4.15

Mexe o seu café com o vagar de uma velha parteira, que aprendeu há muito a saber esperar. João nunca entendeu o seu gosto pelo café bem doce e observava-lhe o gesto com o desdém que só os meninos ricos conhecem. A principio zoava-lhe da falha, mas ela manteve irredutível. Não lhe interessava a opinião dos gourmets, muito menos as regras da etiqueta gastronómica. Cansava-a, tanto alarido por causa de um café. Por fim, já a cansava o homem todo.

22.4.15

Para esquecê-lo, Maria terá de recomeçar a contar as estrelas, sabendo que foi abandonada numa clareira de imensidão vazia. A vida é mesmo assim, hão-de dizer-lhe as vozes, nada é eterno, nem a pedra, nem a terra, nem o leito de um rio, nem as ondas do mar.

A verdade, implorou ela, chorosa, como se na verdade só coubesse amor. A verdade é que não quero mais, respondeu-lhe Joaquim, de rosto cansado e modo enfadado, pronto para sair. Nesse dia, a verdade cortou-lhe as cordas vocais, não voltou a cantar. Agora bebe mentiras, sempre doces e com duas pedras e gelo.

21.4.15

Belita ama Jaime que agora ama Amélia. Vê-os, Belita, da sua janela, no terraço do café, em passos de dança. Um bolero talvez. Belita não contém as lágrimas, quando a perna de Amélia traça no joelho de Jaime um giro mais apertado.

Traz no peito o peso de um pássaro azul, sem que nunca dali tivesse feito gaiola. Alimenta-se de melancolia e alpista de caramelo. Dá-lhe pena ter tanta pena dentro de si.

20.4.15

A bernina, velhinha, é companhia à janela, juntamente com uma tristeza que nunca soube explicar. Aos pés, o seu Príncipe ronrona. Na grafonola, os blues e o jazz do tempo das avós. Sempre que pode, escreve. De agora em diante, aqui.