25.6.15

{As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais.


Fernando Pessoa}


Noemie Goudal


24.6.15

Não há no mundo filha melhor, mais amiga da sua mãe. É assim que a D. Etelvina enche o peito para falar da única filha que Deus lhe deu. No coração de mãe abençoada, o mundo, para termo de comparação, poderá não ser muito maior do que a pequena vila onde sempre viveu e o que lhe chega pela televisão, mas isso não lhe faz abrandar o juízo maternal. O maior gesto de amor, chegada a filha à altura de estudar para a profissão, foi abriu-lhe os braços e pedir-lhe que voasse e fosse tratar da sua vida e ser muito feliz. Não ia agora tê-la  debaixo da saia toda a vida, isso é que não, minha rica filhinha, remata. Não chora, mas o brilho nos olhos denuncia-lhe a solidão.
 

23.6.15

Parece um caso típico de soberba encoberta, coisa de fraca autoestima em criança, talvez uma puberdade aflita, entre o acne bexigoso e a masturbação ineficaz. A verdade é que não há mão de senhora ou senhorita que ele não beije, encantando-as a deleite, enquanto lhes elogia a frescura da pele, na sua voz embargada. Consola-se, numa eterna necessidade de lhes agradar, de lhes saber os batimentos mais acelerados por arte sua. Aos cavalheiros não mostra má cara, mas arrepia caminho na conversa. Remata sempre com um artístico encolher de ombros, escusa-se ao tema futebolístico e cita amiúde Eça ou Camilo, para ajeitar alguma opinião menos palavrosa. No café, a D. Amélia, tremelicante, distingue-o no tratamento e insiste na fórmula já gasta, Sr. Doutor, que gosto em vê-lo!, enquanto ajeita a permanente e o avental. Fá-lo com tal graciosidade nos gestos e candura na voz, que nem mesmo o esposo de quase quatro décadas, acompanhando alguma aguardente velha, numa das mesas mais próximas do balcão, lhe pede o decoro que se espera de uma mulher casada. Nas mesas circundantes, dos rostos antes moles e apáticos, florescem agora sorrisos abertos e olhos ansiosos. Todas querem ser a sua menina, a primeira no elogio, definindo-se desta forma a hierarquia no roseiral para o resto do dia.
 

20.6.15

A tia Miquelina foi à Suiça ver a filha em Abril e de lá já não voltou. As ruas tão limpas, os canteiros cheios de flores, as matinés na Associação, aos domingos à tarde. Já mandou ordens ao irmão que lhe venda as galinhas e os coelhos e, pelo amor a S. Francisco de Assis, a quem a tia Miquelina sempre devotava a boa parição das fêmeas da coelheira, lhe tome conta da Malhada, até que o genro, em visita à mãe, operada às cataratas no início do próximo mês, lha leve. Encontrara a pobre bicha ainda pequena, há mais de seis anos, escondida no meio de um silvado, depois de ter levado pancada de automóvel ou de alguma mão sem coração. Miava de dar dó, assustada e cheia de fome, mas felizmente sem nada partido, como depois de um exame preliminar pelas mãos sábias do Sr. Gomes, o veterinário, se veio a saber. A tia Miquelina passou a tarde inteira, de braços e mãos picados, dentro da roupa preta, sob o sol abrasador de Agosto, teimando em não desistir até tirar o pobre bichinho de lá. Valeu-lhe a latinha de atum, que se lembrou de ir buscar a casa. Depressa se habituaram uma à outra, amparando-se entre o silêncio, a necessidade e a companhia. A tia Miquelina nunca mais chorou, nas idas ao cemitério.


7.6.15

{CREONTE: Levá-la-ei para onde o caminho estiver deserto de pegadas humanas, e ocultá-la-ei viva numa caverna  escavada na rocha, dando-lhe de alimento só o necessário para fugir ao sacrilégio, a fim de que a cidade evite qualquer contaminação. E aí, se ela pedir ao Hades - único dos deuses que venera -, talvez lhe seja concedido não morrer, ou ficará finalmente a saber, embora tarde, que prestar culto a esse deus é trabalho escusado.

Antígona, Sófocles}


Antigone - Frederic Leighton

5.6.15

Diz Marina, enquanto sorve a colher do gelado, que a melhor amiga se vai casar. O olhar morre-lhe na mesa redonda da pastelaria. Continua a conversa, num tom mais lento, dizendo que o namorado da amiga a pediu em casamento em Paris, bem no cimo do Torre Eiffel. Isabel, prima direita, divorciada e sem filhos, atalha-lhe a tristeza afirmando que aquilo é um cliché, nenhuma relação resulta por causa de um cliché. Marina riposta, numa voz alterada, não é um cliché, é romântico! Credo, Isabel, és tão azeda! Os olhos de Isabel brilharam, rasos de água, e a voz tremeu-lhe, quando falou, e tu és uma tola, nada sabes da vida. Levantou-se e saiu. Durante mais de um mês, as primas não se falaram.
 

2.6.15

Ao primeiro acorde, Helena fechou os olhos e inspirou profundamente. Teve vontade de lhe telefonar, mas faltou-lhe a coragem de regressar ao passado.
Voltou à pista de dança e sorriu.
 
 a tocar Gotan Project - Tango Santa Maria