22.8.15

Amor perfeito em tons de azul.

Anna Remarchuk

O Príncipe mia desalmadamente, imitando o choro de um bebé. Esqueceu-se de lhe comprar latinhas no dia anterior e ele, gato palaciano, habituado às mordomias a tempo e horas, castiga-a logo pelas seis da manhã. Antes das nove, hora a que a D. Cremilde abre o mini-mercado, não haverá forma de acabar com a triste sinfonia.

21.8.15

Ouve-as, na mesa do lado, coca-colas ao meio, a de rabo de cavalo fala do italiano super fofo que conheceu no festival da semana passada, a outra abana a cabeça e vai dizendo que isso nunca dá certo. São novas, impossível dizer a idade certa daqueles corpos delegados e caras maquilhadas a rigor, mas não terão ainda chegado aos vinte e cinco. A primeira garante que pode dar, depende das cenas e da vontade de cada um, mas a segunda volta à carga, jura que não, relações à distância nunca funcionam, uma relação é estar juntos, fazer coisas juntos, se não estão juntos, fazem o quê? quase se engasga na interrogação. À sensatez da amiga, a primeira responde, teclamos, não é o que tu passas o tempo a fazer com o Pedro?

15.8.15

De um tecido sintético de ruim qualidade, observou a manta de retalhos, que se distribuía confusamente pelos bancos, com a distância suficiente para não se deixar enganar. Garotos a brincar de pais zangados com um bebé-chorão tão bonito, rodeados de fedelhos de poupas e ténis da moda e fedelhas de sapatos de alterne e vestidos de poliéster em tamanhos e cortes errados. Cabelos empastados de gel, brilhantes espalhados pelo corpo, banda desenhada nas unhas das mãos. Sedução de feira e carrinhos de choque. Talvez julguem que a igreja seja uma espécie de discoteca com bar aberto e ladies night, onde as crianças também podem entrar. Gritos. Irritações impossíveis de evitar, quando se veste tanto material contrafeito.

De onde lhes vem a vontade do baptizo, se tão pouco conhecem o sinal da cruz?

9.8.15

Com as festas dos santos padroeiros e os casamentos de verão, a costureira não tem tido mãos a medir por estes dias. É um sobe e desce de bainhas, pinças para fazer, que o cavalheiro emagreceu, outras para desfazer, que a senhora anda nervosa, um baptizado decidido à última da hora, uma noiva com desejos de refazer a cauda pela terceira vez. A tudo isto, a costureira não se nega, solicitações urgentes em tempos de férias grandes é algo a que já se habituou. Sabe que o mais difícil é arranjar material, se não o tiver em stock, porque os revendedores estão todos a banhos, e aturar as freguesas emproadas, que se julgam sempre para além de qualquer ordem de chegada. Todos os anos se embufavam, dizendo que é a última vez, que da próxima vão à cidade, onde é tudo mais depressa e mais barato, mas no ano seguinte, lá estavam novamente, sentadas de perna traçada, bebericando a limonada da costureira, como se nada se tivesse passado. Há clientela fiel, infelizmente, pensa a costureira.

5.8.15

Agosto, sem gosto ou grande desgosto.


A doença há-de ter nome, uma síndrome qualquer, que, em calhando, os meios de comunicação social hão-de abordar à exaustão do café da manhã ao programa da tarde. Em uníssono com as palmas das reformadas e das desempregadas, todas intoxicadas de pó-de-arroz, haverá lágrimas convulsas, rimel que se esborrata, como as vidas que se desfazem, cenas desenquadradas de dar dó. 
A doença come as entranhas, sabemos, mas também rói os ossos e chupa as veias, como guloseima de refeição. Não há caverna onde ela não busque a sombra, nem toca onde não se esconda. O doente é habitado à revelia, para se transformar num prédio em ruínas. Teima que não, mas reza em segredo para se manter vivo. E a voz continua...
Nunca gostei de Agosto.

2.8.15

- Se já o sabia, não contou a ninguém, foi a mãe que disse que a bebé era deficiente, coitadinha. Ela só chorava. De madrugada, conseguiu fugir do hospital. Foram dar com ela uns pescadores, de manhã, na ponte velha.
- E a bebé?
- Atirou-a ao rio. 

1.8.15

Entreabre ligeiramente a cortina branca e espreita a rua, procurando o barulho que a acordou. O filho da D. Isaura, garoto para doze anos, tenta, em vão, puxar a coleira do cachorro, que mais parece um vitelo. Irritado, grita-lhe para que se mexa, mas o animal continua sentado, com a língua de fora. Não grites, fala-lhe com firmeza, diz-lhe o pai, encostado ao muro, um pouco mais à frente. Desce a persiana. Na penumbra, volta para a cama, onde um abraço a espera.