26.9.15

É dos nervos, ela bem sabe, não vale a pena a resposta afiada na ponta da língua, ele anda nervoso e ela tem de ter paciência, lembrar-se de que também ela não é perfeita e uma vida a dois é mesmo assim, feitas de altos e baixos, montanhas e regadios, como dizia a mãe, nos dias em que o pai chegava a casa, já depois do jantar,  a cair de bêbado e a cantar é tão bom ser pequenino*.  Mas quando ele atira com o pão para o lado, enquanto blasfema, Mas que merda de pão é este, tão seco?, depois de grunhir que a massa não sabe a nada, ela, de talheres na mão, engole a raiva a custo e imagina a faca num vai e vem. Um dia, perde a cabeça.

-- Então e a filha do Pina, já se divorciou do marido? Ouvi dizer que estava a morar em casa dos pais há mais de dois meses...
-- Nada disso, então não sabes?! Empranhou outra vez e já voltou p'ra casa.
-- A sério? Olha, ainda bem, cada um é que sabe da sua vida, e se ainda gostavam um do outro e até aí vem mais um rebento, que sejam felizes.
-- Ó pá, que tu és mesmo cegueta!! Então não soubeste dos cochichos? Aquilo foi foda antiga, diz-se p'rá aí que o Toneca d'Águsta fartou-se de lhe mijar à parede, às tantas da madrugada... foi um falatório...
-- ?! Não sabia de nada. 
-- É verdade. E ela, espertalhona, vendo-se com mais um no bucho, sem marido p'ra pagar as contas, acho que o gajo ganha bem, trabalha nisso dos seguros, sem pai para mais um garoto, que o Toneca pôs-se logo na alheta e foi p'rá Suiça, sem casa, a viver de emprestado nos pais, e sem dinheiro, lá engendrou alguma noite de reconciliação p'ra voltar p'ró corno... Sempre teve o diabo no corpo, aquela... que vergonha a daqueles pais... e logo filha única.
-- Olha, não sei, as pessoas gostam muito de falar, mas não se pode acreditar em tudo. Há muita gente que só gosta é de meter veneno. Não sei se será tudo assim.
-- Mas qual quê, catano?! Estou 'ta dizer, já do primeiro, encornou o marido. Então não se vê logo?! Loirinho como o Zé Pipas, tromba dum, focinho do outro. Uma putéfia, desde garota, nunca me enganou.
-- ...


6.9.15

Trouxe os dois cafés para a mesa da cozinha e sentou-se em frente à costureira. No parapeito da janela aberta, o Riscas dormia, com aquele ar satisfeito que só os gatos conhecem.
-- Vou-te confessar uma coisa, um segredo, mas não te rias. 
-- Não rio, diga.
-- Dá-me um prazer incomensurável meter a louça suja no lava-louça e deixá-la lá, até me apetecer ir lavá-la. É verdade, uma parvoíce que só me envergonha, minha querida, mas assim é. Se a tua avó fosse viva, que Deus a guarde em eterno descanso, tinha um colapso, se entrasse agora aqui e visse aqueles pratos sujos.
-- Parvoíce nenhuma, tia, ...é como o poema, Ter um livro para ler e não o fazer
-- Ora, nem mais. O teu tio ralha comigo. Está sempre a dizer que a ponha na máquina, mas eu nunca gostei de a lavar na máquina, parece que ainda dá mais trabalho.
-- Há quem diga que lavar a louça à mão é uma terapia. 
-- Ahah! Uma irritação, isso sim. 
O gato espreguiça-se, abre um olho, fecha-o, indiferente às duas mulheres, e volta a dormir. O tio, sentado no sofá da sala, mesmo ao lado, mete-se na conversa:
-- Sabes bem que eu gosto das coisas limpas, se chega alguém e vê a loiça suja, pensa o quê, mulher? Olha, como este do jornal, o Saraiva*, que diz que somos uns porcos, porque somos latinos, com sangue árabe... e diz que o grau de limpeza determina o desenvolvimento educacional do povo...
-- ?? Estas a mangar comigo, marido?
-- Estou nada. Vá lá que sou eu que limpo a casa de banho, ... diz o homem que uma casa de banho limpa dá uma imagem positiva do sítio. Ehehehe! 
-- Olha cá, meu menino, não queres dar uma imagem positiva à cozinha também?! Ou chama aí o Saraiva, que os tachos chegam para os dois! Pffff....
Riem-se todos. A louça terá de esperar.


*Crónica de José António Saraiva, Sol, de 4/9/2015, que pode ser lida (partes dela) no excelente blog malomil.
Se ficar imóvel, controlar a respiração, segurando o peito, bem quietinha, atrás da cortina de veludo, a avó diz que ninguém dará com ela.
É o jogo da vida.

A felicidade, minha querida menina, é ver um gato a dormir e um bando de andorinhas voar, chilreando. E é aceitá-la, não a procurando.

4.9.15

{É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade}*


Justina Blakeney

Enquanto a costureira lhe alargava a cinturinha da saia, vítima do mês  do geladinho da tarde e das bolinhas de berlim com as netas, a D. Cândida passava o dedo pelo seu tablet, prenda de natal do seu filho mais velho, abanado a cabeça em sinal de desacordo. Por fim, ergue o olhar e remata para o ar: Você já viu estas madames? - o tom era jocoso -, Passam as férias no bem bom, mal chega Setembro, vão logo buscar umas fotografias dos pobrezinhos, porque são todas umas Parreira Jonet e pensam imeeenso na pobreza dos outros. Mas que vergonha. Não há pachorra!
A costureira pára a máquina e, com um sorriso trocista, pergunta: Mas então as senhoras não podem ser solidárias, ou não podem ir de férias, D. Cândida? D. Cândida levanta-se, elegantemente, ajeita o saiote com a mão esquerda, na direita, o tablet parece agora um leque, e caminha rapidamente pelo tapete em direcção à costureira. Sem dizer palavra, coloca-lhe o aparelho à frente, enquanto vai passando o dedo. Depois de meia dúzia de imagens, olha para a costureira e diz: Vê o que lhe digo? Percebe? Tão depressa estão a vender trapos e bugigangas, como estão a salvar os coitadinhos, são umas empreendedoras do social, só lhe digo...


...esta costureira, que ainda respira sem dificuldades o calor acobreado de Setembro, do ano da graça de dois mil e quinze, seguirá atenta os estranhos acontecimentos do ano de mil novecentos e quarenta e nove. 

2.9.15

Dizem que somos o que escrevemos e eu penso no homem da repartição das finanças, desenhando arabescos e  poemas de amor, com tanto fulgor, em rodapés de guardanapos brancos com listas azuis e amarelas, à rapariga da pastelaria, bom apetite, obrigado, volte sempre, minha querida, meu pastel de nata, meu galão quente.