6.9.15

Trouxe os dois cafés para a mesa da cozinha e sentou-se em frente à costureira. No parapeito da janela aberta, o Riscas dormia, com aquele ar satisfeito que só os gatos conhecem.
-- Vou-te confessar uma coisa, um segredo, mas não te rias. 
-- Não rio, diga.
-- Dá-me um prazer incomensurável meter a louça suja no lava-louça e deixá-la lá, até me apetecer ir lavá-la. É verdade, uma parvoíce que só me envergonha, minha querida, mas assim é. Se a tua avó fosse viva, que Deus a guarde em eterno descanso, tinha um colapso, se entrasse agora aqui e visse aqueles pratos sujos.
-- Parvoíce nenhuma, tia, ...é como o poema, Ter um livro para ler e não o fazer
-- Ora, nem mais. O teu tio ralha comigo. Está sempre a dizer que a ponha na máquina, mas eu nunca gostei de a lavar na máquina, parece que ainda dá mais trabalho.
-- Há quem diga que lavar a louça à mão é uma terapia. 
-- Ahah! Uma irritação, isso sim. 
O gato espreguiça-se, abre um olho, fecha-o, indiferente às duas mulheres, e volta a dormir. O tio, sentado no sofá da sala, mesmo ao lado, mete-se na conversa:
-- Sabes bem que eu gosto das coisas limpas, se chega alguém e vê a loiça suja, pensa o quê, mulher? Olha, como este do jornal, o Saraiva*, que diz que somos uns porcos, porque somos latinos, com sangue árabe... e diz que o grau de limpeza determina o desenvolvimento educacional do povo...
-- ?? Estas a mangar comigo, marido?
-- Estou nada. Vá lá que sou eu que limpo a casa de banho, ... diz o homem que uma casa de banho limpa dá uma imagem positiva do sítio. Ehehehe! 
-- Olha cá, meu menino, não queres dar uma imagem positiva à cozinha também?! Ou chama aí o Saraiva, que os tachos chegam para os dois! Pffff....
Riem-se todos. A louça terá de esperar.


*Crónica de José António Saraiva, Sol, de 4/9/2015, que pode ser lida (partes dela) no excelente blog malomil.