3.10.15

Um dia apareceram-lhe os dois à porta, pai e mãe, com mais de duas horas de caminho, indecisos, no pequeno átrio do elevador, entre tocar à campainha ou bater à porta. Uma camisa azul de domingo, no pai, o cabelo recém-pintado, com unhas a condizer, na mãe. O espanto foi tal, que demorou alguns segundos, séculos, pareceram-lhe, a conseguir articular a primeira frase,
-- ...?O que estão aqui a fazer?!...
O pai recuou e fingiu interesse na instalação eléctrica do prédio, nunca se dera bem com perguntas directas, mas a mãe, empinando as mamas e o dedo, - aquele maldito tique de professora primária -, começou,
-- Bom dia também para ti, minha menina. E que mal tem, estarmos aqui? Somos nós que pagamos esta casa, não somos? Não nos convidas para entrar, ao menos? Mas que educação!...
Felizmente estava sozinha, o sexo ocasional, encontrado num bar de Santos, depois de várias rodadas de imperiais com o pessoal da faculdade, tinha saído perto das sete da manhã. Disse qualquer coisa de ir apanhar o comboio para o Cacém, ela nem percebeu. Abriu a porta o suficiente para ambos entrarem, enquanto percorria mentalmente a casa, tentando lembrar-se se já tinha posto os preservativos todos no lixo. Porra, mas que merda de visita era aquela?