O joelho tinha começado a doer e D. Lurdes avançava devagar. Ia a meio do corredor, quando lhe chegou a voz alterada da amiga, percebeu que D. Fátinha estava exaltada. Automaticamente decidiu virar costas à rota traçada, era um abuso, entrar assim pela intimidade das pessoas, onde tinha ela a cabeça, para não ter pedido à Marianinha que avisasse a mãe? Ia esperar na sala. Mal deu o primeiro passo em retaguarda, ouviu o grito: Mentiroso! Abusador! Estancou a passada e ficou sem saber o que fazer. Não queria acreditar, então afinal era verdade? e agora? avança? recua? deixa-se ficar ali e ouve o resto? Ai valha-me Nosso Senhor! Aflita nas suas preces, D. Lurdes decide voltar ao rés-do-chão. Sem saber ao certo o que fazer, mal acaba de descer as escadas, abre a porta da rua e sai de rompante. Atónita, de olhos demasiado abertos, regressa a casa o mais rápido que pode. As dores no joelho crescem como labaredas, ao virar a última esquina, não consegue evitar as lágrimas. Já à porta de casa, não aguenta mais e cai no chão de terra fofa do jardim e chora convulsivamente. Alguma coisa rebentou dentro de si.
27.12.15
21.12.15
D. Lurdes saiu da missa e ajeitou o passo até ao nº 34 da rua principal, onde morava a D. Fátinha, que, em resultado de uma constipação mal curada, permanecia na cama há mais de três dias. Quem lhe abriu a porta foi a filha mais nova, a Mariana, a quem todos chamavam, desde mais tenra idade (e para vergonha da jovem, agora na puberdade, que guinchava que já não era uma criança), de Marianinha. Era uma rapariga de catorze anos, cabelo escorrido, pintado cor de azeviche, a tapar-lhe a cara, olhos carregados de cor preta e muitas borbulhas disfarçadas debaixo de várias camadas generosas de base.
-- Estás boa, Marianinha? E a tua mãe?
-- Tá tudo bem, D. Lurdes... A minha mãe tá no quarto, pode subir.
D. Lurdes ainda abriu a boca para perguntar pelo paizinho, mas Marianinha já tinha voltado para a sala, e pela algazarra de risinhos histéricos, falava com alguma amiga ao telefone.
Pois bem, se a rapariga a tinha mandado subir, é porque a mãe haveria de estar sozinha. Fechou a porta da entrada, não viesse alguma corrente de ar e subiu devagar os dezoito degraus, apoiando-se no corrimão de madeira. A dor no joelho esquerdo tinha voltado e sempre que o obrigava a dobrar, vinham-lhe umas picadas tão fortes na zona da rótula, que D. Lurdes só não chorava por vergonha. Foi por isso que não veio logo ver a D. Fátinha, quando esta caiu de cama, esperava que a dor no joelho passasse, mas como não havia meio e consulta só dentro de duas semanas, lá se meteu a caminho. A D. Fátinha, de quem muita gente falava mal em surdina, tinha sido sempre uma boa amiga, especialmente aquando da morte do seu Zé, não seria ela a virar-lhe agora as costas.
...
12.12.15
Foi uma cerimónia bonita, onde não faltaram os familiares e amigos mais próximos, em igual quantidade de gente anónima que também quis ofertar um último adeus. O padre, amigo da família, enalteceu o homem de bem. Os homens olharam cabisbaixos para as biqueiras dos sapatos, Qual de nós, a seguir? As senhoras, que não continham os pingos, fungavam baixinho, enquanto lamuriavam palavras gastas de ocasião. A viúva, embrulhada no luto a estrear, ia assoando vagarosamente o nariz. Dos colegas e clientes, vieram muitas coroas de flores, tantas que o homem da agência funerária teve de mandar vir mais um carro, Não estávamos à espera, mas que a senhora não se preocupasse, que tudo se havia de levar, olhe que coisa assim, tanto respeito e condolências, nunca ele tinha visto em vinte anos de serviço, que cerimónia bonita...
Longe dali, entre os gritos e correrias de duas crianças, uma mulher chorou.
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