21.12.15

D. Lurdes saiu da missa e ajeitou o passo até ao nº 34 da rua principal, onde morava a D. Fátinha, que, em resultado de uma constipação mal curada, permanecia na cama há mais de três dias. Quem lhe abriu a porta foi a filha mais nova, a Mariana, a quem todos chamavam, desde mais tenra idade (e para vergonha da jovem, agora na puberdade, que guinchava que já não era uma criança), de Marianinha. Era uma rapariga de catorze anos, cabelo escorrido, pintado cor de azeviche, a tapar-lhe a cara, olhos carregados de cor preta e muitas borbulhas disfarçadas debaixo de várias camadas generosas de base.
 
-- Estás boa, Marianinha? E a tua mãe?
 
-- Tá tudo bem, D. Lurdes... A minha mãe tá no quarto, pode subir.
 
D. Lurdes ainda abriu a boca para perguntar pelo paizinho, mas Marianinha já tinha voltado para a sala, e pela algazarra de risinhos histéricos, falava com alguma amiga ao telefone.
Pois bem, se a rapariga a tinha mandado subir, é porque a mãe haveria de estar sozinha. Fechou a porta da entrada, não viesse alguma corrente de ar e subiu devagar os dezoito degraus, apoiando-se no corrimão de madeira. A dor no joelho esquerdo tinha voltado e sempre que o obrigava a dobrar, vinham-lhe umas picadas tão fortes na zona da rótula, que D. Lurdes só não chorava por vergonha. Foi por isso que não veio logo ver a D. Fátinha, quando esta caiu de cama, esperava que a dor no joelho passasse, mas como não havia meio e consulta só dentro de duas semanas, lá se meteu a caminho. A D. Fátinha, de quem muita gente falava mal em surdina, tinha sido sempre uma boa amiga, especialmente aquando da morte do seu Zé, não seria ela a virar-lhe agora as costas.
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