26.4.15

Desde menina, Joaninha sempre julgou que, se alguma vez perdesse o grande amor da sua vida, cairia de cama. Ninguém lhe explicou que isso era nos filmes. Na vida, os abandonados continuam a levantar-se e a suportar a banalidade dos dias, carregando a dor e a desilusão. 

24.4.15

Mexe o seu café com o vagar de uma velha parteira, que aprendeu há muito a saber esperar. João nunca entendeu o seu gosto pelo café bem doce e observava-lhe o gesto com o desdém que só os meninos ricos conhecem. A principio zoava-lhe da falha, mas ela manteve irredutível. Não lhe interessava a opinião dos gourmets, muito menos as regras da etiqueta gastronómica. Cansava-a, tanto alarido por causa de um café. Por fim, já a cansava o homem todo.

22.4.15

Para esquecê-lo, Maria terá de recomeçar a contar as estrelas, sabendo que foi abandonada numa clareira de imensidão vazia. A vida é mesmo assim, hão-de dizer-lhe as vozes, nada é eterno, nem a pedra, nem a terra, nem o leito de um rio, nem as ondas do mar.

A verdade, implorou ela, chorosa, como se na verdade só coubesse amor. A verdade é que não quero mais, respondeu-lhe Joaquim, de rosto cansado e modo enfadado, pronto para sair. Nesse dia, a verdade cortou-lhe as cordas vocais, não voltou a cantar. Agora bebe mentiras, sempre doces e com duas pedras e gelo.

21.4.15

Belita ama Jaime que agora ama Amélia. Vê-os, Belita, da sua janela, no terraço do café, em passos de dança. Um bolero talvez. Belita não contém as lágrimas, quando a perna de Amélia traça no joelho de Jaime um giro mais apertado.

Traz no peito o peso de um pássaro azul, sem que nunca dali tivesse feito gaiola. Alimenta-se de melancolia e alpista de caramelo. Dá-lhe pena ter tanta pena dentro de si.

20.4.15

A bernina, velhinha, é companhia à janela, juntamente com uma tristeza que nunca soube explicar. Aos pés, o seu Príncipe ronrona. Na grafonola, os blues e o jazz do tempo das avós. Sempre que pode, escreve. De agora em diante, aqui.