11.5.15

De mão dada, sobem a rua, sabendo que são cochicho do muro em frente. Os homens cobiçam-lhes a sorte, as senhoras invejam os sorrisos límpidos. Uns e outros observam o par que lentamente caminha para o café. Deolinda não esperava que João se lhe declarasse assim, num dia de semana, logo pela manhã, de braços carregados de gladíolos, encostado ao portão de ferro. Feliz, aperta-lhe a mão.

8.5.15

Um homem que cuida do embrulho de um livro, como se do aconchego do corpo de uma mulher se tratasse. A costureira despe cada uma das peles do embrulho, imaginando o tempo certo, a dobra perfeita que cada uma levou a vestir. Chegada à nudez do livro, sente o calor nascido no baixo-ventre, desejo que lhe intumesce os seios, desnorteando-lhe por momentos o olhar. Um acto de amor, entregue em papel manteiga e guita de algodão.
 
Beatriz gostava quando José a beijava de ímpeto, até o ar lhe faltar. Naquela fome sentia fartura. Estão juntos até hoje.
Era como a Beatriz que Lucinha, sua irmã mais nova, queria ser. Amada e feliz. Mas a vida não acontecia a Lucinha como tinha germinado em Beatriz. Nela os homens não queria fazer um ninho, preferindo, dos braços longos, um rápido aconchego.
 

6.5.15

A costureira triste, antes de abrir esta caixinha mágica, costumava escrever tudo num caderninho. Mas cedo percebeu que a escrita é como o amor, deve ser partilhada.  

5.5.15

Catarina já nasceu no tempo da CEE, de menina trigueira se fez uma jovem mulher, elegante, estudou na cidade e por lá se empregou. A casa da mãe, vem de quinze em quinze dias. Rui, que não passou do ensino secundário obrigatório, ainda lhe deita o olho, quando ela passa na rua, acompanhando a mãe à missa. A coragem, essa, continua a faltar-lhe.

Passou cedo, o António, deixou o embrulho com a D. Miquelina do 1º andar. Três laranjas, duas peras, meia dúzia de botões de coco, lacados num azul-petróleo apaziguador, e um livro de poesia, de André Breton, em versão original. Como um quadrado de chocolate que se derrete lentamente na boca, assim se mantém Paris, enrolada na língua.
 

4.5.15

Bebe um café au lait, em frente à janela. Lá fora, um vendaval agita as laranjeiras. A chuva, que começou de madrugada, ainda não parou. O Príncipe, de saudades, dobra-se em atenções, dando-lhe pequenas turras na barriga das pernas. Hoje apetecia-lhe ficar na cama, mas as bainhas não esperam.

2.5.15


Triste, parte da cidade das memórias. Os amigos ficam.
Paris, je t'aime.

Henry Clarke


1.5.15

Hoje, o infindável e admirável Louvre.

{La Vénus de Milo est pour moi trop moderne. Mais la Nikè de Samothrace, la déesse de la victoire montée sur sa coque de navire, avec son mouvement admirable et le vent du large dans ses vêtements, voilà pour moi la mer-veille et tout un monde. Voilà la Grèce. Voilà la grève, la mer et la lumière, le courage et la victoire. Et puis, les stèles funéraires avec leurs admirables reliefs, ces pro-fils et ces mains, ces mains, ces groupements de mains, cette incomparable profondeur de sentiment, cet art et presque: cette sagesse. Et puis Tanagra. Voilà une source de vie éternelle!

Auguste Rodin, Rainer Maria Rilke}

30.4.15

Pouco depois das 19:30h, sai do metro e avança pela Rue Rambuteau. Pouco mais de dez minutos e chega ao centre culturel suisse. Feliz, daqui pouco comemorará o Dia Internacional do Jazz, ouvindo Jerry Léonide. Marie far-lhe-á companhia.

Flores, pedras esculpidas, gritos de crianças, raios de sol. Amigos.
Merci, Maria de' Medici.

Jardim do Luxemburgo, Darcy Rhyno

29.4.15

Bonjour!
Bem cedinho, un café sur les Champs-Elysées, na companhia de Julio. Mais tarde, sem pressas, há-de descer a Avenue Marceau e subir, mais uma vez, à Tour Eiffel. Fá-lo sempre para dar sorte, mesmo sabendo que terá de suportar as filas intermináveis de sorrisos orientais. Almoçará na Brasserie de L'Isle Saint Louis, paixão antiga. Reservou a tarde para visitar, com calma, a cathédrale Notre-Dame. Talvez encontre Quasimodo.


{Et la cathédrale ne lui était pas seulement la société, mais encore l'univers, mais encore toute la nature. 

Notre-Dame de Paris, Victor Hugo}

28.4.15

As malas estão prontas, aguardando aos pés da cama. O Príncipe, habituado às saídas fortuitas da costureira, não se incomoda, sabe que ela regressa sempre para si. A D. Lurdes virá encher-lhe a tigela.
Paris, je t'aime, sonha ela, dentro dos lençóis azul-turquesa.

27.4.15

Parecem tolas as andorinhas, D. Maria cogitava, sempre às reviravoltas, num chiadeiro interminável. Parecem felizes as andorinhas, Luisinha suspirava, piruetas de dança, gritos de amor indecifrável.

26.4.15

Desde menina, Joaninha sempre julgou que, se alguma vez perdesse o grande amor da sua vida, cairia de cama. Ninguém lhe explicou que isso era nos filmes. Na vida, os abandonados continuam a levantar-se e a suportar a banalidade dos dias, carregando a dor e a desilusão. 

24.4.15

Mexe o seu café com o vagar de uma velha parteira, que aprendeu há muito a saber esperar. João nunca entendeu o seu gosto pelo café bem doce e observava-lhe o gesto com o desdém que só os meninos ricos conhecem. A principio zoava-lhe da falha, mas ela manteve irredutível. Não lhe interessava a opinião dos gourmets, muito menos as regras da etiqueta gastronómica. Cansava-a, tanto alarido por causa de um café. Por fim, já a cansava o homem todo.

22.4.15

Para esquecê-lo, Maria terá de recomeçar a contar as estrelas, sabendo que foi abandonada numa clareira de imensidão vazia. A vida é mesmo assim, hão-de dizer-lhe as vozes, nada é eterno, nem a pedra, nem a terra, nem o leito de um rio, nem as ondas do mar.

A verdade, implorou ela, chorosa, como se na verdade só coubesse amor. A verdade é que não quero mais, respondeu-lhe Joaquim, de rosto cansado e modo enfadado, pronto para sair. Nesse dia, a verdade cortou-lhe as cordas vocais, não voltou a cantar. Agora bebe mentiras, sempre doces e com duas pedras e gelo.

21.4.15

Belita ama Jaime que agora ama Amélia. Vê-os, Belita, da sua janela, no terraço do café, em passos de dança. Um bolero talvez. Belita não contém as lágrimas, quando a perna de Amélia traça no joelho de Jaime um giro mais apertado.

Traz no peito o peso de um pássaro azul, sem que nunca dali tivesse feito gaiola. Alimenta-se de melancolia e alpista de caramelo. Dá-lhe pena ter tanta pena dentro de si.