19.5.15

A 19 de Janeiro de 1729, uma quarta-feira, Mariana Vitória, princesa espanhola, e Maria Bárbara, princesa portuguesa, trocaram de país e de estado civil, a meio do rio Caia, tudo com pompa e muita circunstância, numa ponte e castelo de madeira construídos apenas e de propósito para o real casamento duplo. Aguardavam-nas, respectivamente, o infante D. José e o infante D. Fernando. A escolha do rio Caia, não foi mero acaso, antes uma escolha estratégica, para que nenhum dos monarcas ficasse na desvantagem do solo estrangeiro. Acompanhava a comitiva da princesa portuguesa, o compositor italiano Domenico Scarlatti, que foi mestre da capela real portuguesa do Rei D. João V e também professor de música de Maria Bárbara, que, segundo alguns relatos da época, era exímia cravista. Foi ele o responsável pela música da cerimónia da troca das princesas. Não se sabe que composições terá criado e interpretado, mas a ideia acompanha bem com este fandango.

18.5.15

Eu já não percebo nada, esbraceja o Sr. Victor na mesa do lado. Vêm agora falar disso do acordo ortográfico, de tirar as letras que não se lêem, mas isso, que eu saiba, já o pessoal fazia. O Sr. António, que o acompanha na bica da manhã, quer saber melhor do que é que ele está a falar, e o Sr. Victor continua. Então, a minha filha, que é professora de português, veja bem, professora de português - enfatiza ele -, quando o meu neto nasceu, veio toda melosa dizer-me que o petiz iria ter o nome do avô. Eu, claro, gostei de saber. Pois sabe como se chama a criança? Sabe? V-í-t-o-r! Então isso é lá o mesmo? Não é!
 

15.5.15

Hoje não sobeja tempo para as palavras, tem dois pares de calças do Sr. Maurício, que precisam de costuras rebatidas. O Sr. Maurício é freguês desde o princípio, quando se zangou com a D. Henriqueta, antiga costureira, que entretanto se reformou. Calhou uma vez, numa camisa, D. Henriqueta à pressa, ter-lhe feito ponto sobreposto onde deveria ser pesponto, e o Sr. Maurício, com reunião de japoneses lá na fábrica na manhã seguinte, e sem opção na mesma cor, não lhe perdoou. Conhecedora do terrível evento e de tão sensível feitio, a costureira triste não se atreve a falhar no ponto e cala por agora a escrita.
 

14.5.15

Aconteceu como tinha de acontecer, disse a mulher que lia as sinas. Ele voltou à família de faqueiro de prata e porcelanas limoges, ela continuou a partir a côdea à mão. Ou o amor não vence tudo ou nem tudo é amor. Mas disso ela já não quer saber.
 

13.5.15

Não é de hoje que na vila se critica o Chico, rapaz jeitoso, a caminho dos quarenta, porque é mulherengo, passando a vida a trocar de mulher. Não inspira confiança, é o que é. Já o Jorge da Maria Helena, meio-irmão do Chico, casado há sete anos e pai babado de uma menina de dois, é ao contrário. Um rapaz sério e generoso que só visto. Que o diga a Cristina, com quem se encontra todas as quintas-feiras no motel da cidadezinha mais próxima.

12.5.15

«A vida não é dada a grandes fantasias, minha filha», dizia-lhe a avó Belarmina, enquanto cerzia as meias do avô Joaquim. Mas Cristina, a neta, tinha nascido sonhadora, habitada por borboletas de papel e unicórnios gigantes. Da mãe, que morrera no parto, herdara também o sorriso solar e os olhos brilhantes. Em criança, queria ser professora ou enfermeira, poder ajudar o próximo. Mais tarde escolheu ser jornalista. Afinal o que queria mesmo era ajudar a salvar o mundo.
 

11.5.15

De mão dada, sobem a rua, sabendo que são cochicho do muro em frente. Os homens cobiçam-lhes a sorte, as senhoras invejam os sorrisos límpidos. Uns e outros observam o par que lentamente caminha para o café. Deolinda não esperava que João se lhe declarasse assim, num dia de semana, logo pela manhã, de braços carregados de gladíolos, encostado ao portão de ferro. Feliz, aperta-lhe a mão.

8.5.15

Um homem que cuida do embrulho de um livro, como se do aconchego do corpo de uma mulher se tratasse. A costureira despe cada uma das peles do embrulho, imaginando o tempo certo, a dobra perfeita que cada uma levou a vestir. Chegada à nudez do livro, sente o calor nascido no baixo-ventre, desejo que lhe intumesce os seios, desnorteando-lhe por momentos o olhar. Um acto de amor, entregue em papel manteiga e guita de algodão.
 
Beatriz gostava quando José a beijava de ímpeto, até o ar lhe faltar. Naquela fome sentia fartura. Estão juntos até hoje.
Era como a Beatriz que Lucinha, sua irmã mais nova, queria ser. Amada e feliz. Mas a vida não acontecia a Lucinha como tinha germinado em Beatriz. Nela os homens não queria fazer um ninho, preferindo, dos braços longos, um rápido aconchego.
 

6.5.15

A costureira triste, antes de abrir esta caixinha mágica, costumava escrever tudo num caderninho. Mas cedo percebeu que a escrita é como o amor, deve ser partilhada.  

5.5.15

Catarina já nasceu no tempo da CEE, de menina trigueira se fez uma jovem mulher, elegante, estudou na cidade e por lá se empregou. A casa da mãe, vem de quinze em quinze dias. Rui, que não passou do ensino secundário obrigatório, ainda lhe deita o olho, quando ela passa na rua, acompanhando a mãe à missa. A coragem, essa, continua a faltar-lhe.

Passou cedo, o António, deixou o embrulho com a D. Miquelina do 1º andar. Três laranjas, duas peras, meia dúzia de botões de coco, lacados num azul-petróleo apaziguador, e um livro de poesia, de André Breton, em versão original. Como um quadrado de chocolate que se derrete lentamente na boca, assim se mantém Paris, enrolada na língua.
 

4.5.15

Bebe um café au lait, em frente à janela. Lá fora, um vendaval agita as laranjeiras. A chuva, que começou de madrugada, ainda não parou. O Príncipe, de saudades, dobra-se em atenções, dando-lhe pequenas turras na barriga das pernas. Hoje apetecia-lhe ficar na cama, mas as bainhas não esperam.

2.5.15


Triste, parte da cidade das memórias. Os amigos ficam.
Paris, je t'aime.

Henry Clarke


1.5.15

Hoje, o infindável e admirável Louvre.

{La Vénus de Milo est pour moi trop moderne. Mais la Nikè de Samothrace, la déesse de la victoire montée sur sa coque de navire, avec son mouvement admirable et le vent du large dans ses vêtements, voilà pour moi la mer-veille et tout un monde. Voilà la Grèce. Voilà la grève, la mer et la lumière, le courage et la victoire. Et puis, les stèles funéraires avec leurs admirables reliefs, ces pro-fils et ces mains, ces mains, ces groupements de mains, cette incomparable profondeur de sentiment, cet art et presque: cette sagesse. Et puis Tanagra. Voilà une source de vie éternelle!

Auguste Rodin, Rainer Maria Rilke}

30.4.15

Pouco depois das 19:30h, sai do metro e avança pela Rue Rambuteau. Pouco mais de dez minutos e chega ao centre culturel suisse. Feliz, daqui pouco comemorará o Dia Internacional do Jazz, ouvindo Jerry Léonide. Marie far-lhe-á companhia.

Flores, pedras esculpidas, gritos de crianças, raios de sol. Amigos.
Merci, Maria de' Medici.

Jardim do Luxemburgo, Darcy Rhyno

29.4.15

Bonjour!
Bem cedinho, un café sur les Champs-Elysées, na companhia de Julio. Mais tarde, sem pressas, há-de descer a Avenue Marceau e subir, mais uma vez, à Tour Eiffel. Fá-lo sempre para dar sorte, mesmo sabendo que terá de suportar as filas intermináveis de sorrisos orientais. Almoçará na Brasserie de L'Isle Saint Louis, paixão antiga. Reservou a tarde para visitar, com calma, a cathédrale Notre-Dame. Talvez encontre Quasimodo.


{Et la cathédrale ne lui était pas seulement la société, mais encore l'univers, mais encore toute la nature. 

Notre-Dame de Paris, Victor Hugo}

28.4.15

As malas estão prontas, aguardando aos pés da cama. O Príncipe, habituado às saídas fortuitas da costureira, não se incomoda, sabe que ela regressa sempre para si. A D. Lurdes virá encher-lhe a tigela.
Paris, je t'aime, sonha ela, dentro dos lençóis azul-turquesa.

27.4.15

Parecem tolas as andorinhas, D. Maria cogitava, sempre às reviravoltas, num chiadeiro interminável. Parecem felizes as andorinhas, Luisinha suspirava, piruetas de dança, gritos de amor indecifrável.