Conta a Joaninha que a prima Helena lhe escreveu, que está numa aflição de dar dó. Casada à pressa para esconder a barriga de dois meses, já vai grávida do terceiro, que há-de nascer para Dezembro. Com os filhos veio o peso, carne que não era sua, e da bela rapariga de antigamente, a mais chamada para dançar nos bailes da casa do povo, apenas resta uma mulher amargurada. O marido, um primo em segundo grau, sempre foi de se encostar, um roça-esquinas, esclarece a Joaninha, entre dentes, ia fazendo uns biscates aqui e ali, quase sempre na construção, mas há coisa de um ano, o patrão foi para Angola, e desde essa altura nunca mais arranjou nada. O patrão ainda lhe perguntou se ele queria ir também, mas ele disse logo que trabalhar p'ra pretos, nem morto! Helena, que ganha pouco mais do que o ordenado mínimo na fábrica do calçado lá da vila, anda farta de chorar. Às bebedeiras, que são diárias, tantas vezes com um olho negro à mistura, porque ele com os copos nem sabe o que faz, juntou-se agora um par de assistentes da segurança social, com caras de fuinhas, a bater-lhe à porta todas as semanas. Que vêm saber dos meninos e da estrutura familiar. Joaninha pára por uns momentos, baixa a cabeça, como que para dar tempo à reflexão profunda daquele grupo que a escuta. Funga no lenço branco de papel, enquanto as suas ouvintes, público experiente nestas coisas que são as novelas da vida, aproveitam o momento para reforçar os laços de empatia com a triste história que Joaninha partilha. Suspiram, umas e outras, cada uma à sua maneira, enquanto vão lamuriando, coitadinha... quem diria... mas que tristeza... Joaninha, já mais calma e com a lágrima segura, reinicia a descrição do calvário familiar.
28.5.15
27.5.15
«Escrever leve, facilmente digerível, interessante e peculiar. Como um sopro de pó de talco ou o flutuar de um longo vestido azul. Se pretender incidir, escolher a ironia elegante, se pretender o afago ao ego, palmilhar léguas acenando. No caso concreto, aconselho a simplicidade do retrato e a singularidade da profissão. De momento, registo bastante aceitável.»
Apareceu esta tarde na velha caixa do correio, embutida no portão de ferro. Dentro de um envelope branco, sem timbre, remetente nem ao cuidado, em papel grosso de qualidade, as palavras desenhadas a lápis de carvão. A costureira agradece mentalmente semelhante preocupação. Arrisca uma interpretação, enquanto inspira a mensagem. Ainda é possível sentir o rasto da tangerina, a folha do limão, talvez hortelã ou um traço a musgo, a madeira húmida e o almíscar pulsante.
25.5.15
Tão triste anda Guiomar, e tão magrinha, que ontem bem cedo, no salão da Cristina, já se comentava. Umas diziam que é doença, outras que tem a mãe a morrer, há quem diga que aquilo tem jeitos de ser desgosto de amor, julgava ter diamante, descobriu que afinal é moissanite. Especulação para todos os gostos. À Guiomar ninguém pergunta, que da sua vida, diziam todas, briosas das suas boas maneiras, cada um é que sabe.
20.5.15
{Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas}
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas}
Lê novamente o poema de António Ramos Rosa, escrito a lapiseira azul nas costas de um talão do supermercado da D. Arminda. Sorri ao ler também a lista das compras, como se o pão centeio e o quilo de laranjas fossem promessa de um pequeno-almoço depois do grito. Quem teria perdido na calçada tamanha preciosidade? Guarda o papel no bolso da gabardine, sentindo-se a fiel guardiã de um tesouro sagrado. Às primeiras gotas de chuva, corre em direcção à banca da fruta. Não se pode adiar o coração, tão pouco as primeiras cerejas do Fundão.
19.5.15
A 19 de Janeiro de 1729, uma quarta-feira, Mariana Vitória, princesa espanhola, e Maria Bárbara, princesa portuguesa, trocaram de país e de estado civil, a meio do rio Caia, tudo com pompa e muita circunstância, numa ponte e castelo de madeira construídos apenas e de propósito para o real casamento duplo. Aguardavam-nas, respectivamente, o infante D. José e o infante D. Fernando. A escolha do rio Caia, não foi mero acaso, antes uma escolha estratégica, para que nenhum dos monarcas ficasse na desvantagem do solo estrangeiro. Acompanhava a comitiva da princesa portuguesa, o compositor italiano Domenico Scarlatti, que foi mestre da capela real portuguesa do Rei D. João V e também professor de música de Maria Bárbara, que, segundo alguns relatos da época, era exímia cravista. Foi ele o responsável pela música da cerimónia da troca das princesas. Não se sabe que composições terá criado e interpretado, mas a ideia acompanha bem com este fandango.
18.5.15
Eu já não percebo nada, esbraceja o Sr. Victor na mesa do lado. Vêm agora falar disso do acordo ortográfico, de tirar as letras que não se lêem, mas isso, que eu saiba, já o pessoal fazia. O Sr. António, que o acompanha na bica da manhã, quer saber melhor do que é que ele está a falar, e o Sr. Victor continua. Então, a minha filha, que é professora de português, veja bem, professora de português - enfatiza ele -, quando o meu neto nasceu, veio toda melosa dizer-me que o petiz iria ter o nome do avô. Eu, claro, gostei de saber. Pois sabe como se chama a criança? Sabe? V-í-t-o-r! Então isso é lá o mesmo? Não é!
15.5.15
Hoje não sobeja tempo para as palavras, tem dois pares de calças do Sr. Maurício, que precisam de costuras rebatidas. O Sr. Maurício é freguês desde o princípio, quando se zangou com a D. Henriqueta, antiga costureira, que entretanto se reformou. Calhou uma vez, numa camisa, D. Henriqueta à pressa, ter-lhe feito ponto sobreposto onde deveria ser pesponto, e o Sr. Maurício, com reunião de japoneses lá na fábrica na manhã seguinte, e sem opção na mesma cor, não lhe perdoou. Conhecedora do terrível evento e de tão sensível feitio, a costureira triste não se atreve a falhar no ponto e cala por agora a escrita.
14.5.15
13.5.15
Não é de hoje que na vila se critica o Chico, rapaz jeitoso, a caminho dos quarenta, porque é mulherengo, passando a vida a trocar de mulher. Não inspira confiança, é o que é. Já o Jorge da Maria Helena, meio-irmão do Chico, casado há sete anos e pai babado de uma menina de dois, é ao contrário. Um rapaz sério e generoso que só visto. Que o diga a Cristina, com quem se encontra todas as quintas-feiras no motel da cidadezinha mais próxima.
12.5.15
«A vida não é dada a grandes fantasias, minha filha», dizia-lhe a avó Belarmina, enquanto cerzia as meias do avô Joaquim. Mas Cristina, a neta, tinha nascido sonhadora, habitada por borboletas de papel e unicórnios gigantes. Da mãe, que morrera no parto, herdara também o sorriso solar e os olhos brilhantes. Em criança, queria ser professora ou enfermeira, poder ajudar o próximo. Mais tarde escolheu ser jornalista. Afinal o que queria mesmo era ajudar a salvar o mundo.
11.5.15
De mão dada, sobem a rua, sabendo que são cochicho do muro em frente. Os homens cobiçam-lhes a sorte, as senhoras invejam os sorrisos límpidos. Uns e outros observam o par que lentamente caminha para o café. Deolinda não esperava que João se lhe declarasse assim, num dia de semana, logo pela manhã, de braços carregados de gladíolos, encostado ao portão de ferro. Feliz, aperta-lhe a mão.
8.5.15
Um homem que cuida do embrulho de um livro, como se do aconchego do corpo de uma mulher se tratasse. A costureira despe cada uma das peles do embrulho, imaginando o tempo certo, a dobra perfeita que cada uma levou a vestir. Chegada à nudez do livro, sente o calor nascido no baixo-ventre, desejo que lhe intumesce os seios, desnorteando-lhe por momentos o olhar. Um acto de amor, entregue em papel manteiga e guita de algodão.
Beatriz gostava quando José a beijava de ímpeto, até o ar lhe faltar. Naquela fome sentia fartura. Estão juntos até hoje.
Era como a Beatriz que Lucinha, sua irmã mais nova, queria ser. Amada e feliz. Mas a vida não acontecia a Lucinha como tinha germinado em Beatriz. Nela os homens não queria fazer um ninho, preferindo, dos braços longos, um rápido aconchego.
6.5.15
5.5.15
Catarina já nasceu no tempo da CEE, de menina trigueira se fez uma jovem mulher, elegante, estudou na cidade e por lá se empregou. A casa da mãe, vem de quinze em quinze dias. Rui, que não passou do ensino secundário obrigatório, ainda lhe deita o olho, quando ela passa na rua, acompanhando a mãe à missa. A coragem, essa, continua a faltar-lhe.
Passou cedo, o António, deixou o embrulho com a D. Miquelina do 1º andar. Três laranjas, duas peras, meia dúzia de botões de coco, lacados num azul-petróleo apaziguador, e um livro de poesia, de André Breton, em versão original. Como um quadrado de chocolate que se derrete lentamente na boca, assim se mantém Paris, enrolada na língua.
4.5.15
2.5.15
1.5.15
Hoje, o infindável e admirável Louvre.
{La Vénus de Milo est pour moi trop moderne. Mais la Nikè de Samothrace, la déesse de la victoire montée sur sa coque de navire, avec son mouvement admirable et le vent du large dans ses vêtements, voilà pour moi la mer-veille et tout un monde. Voilà la Grèce. Voilà la grève, la mer et la lumière, le courage et la victoire. Et puis, les stèles funéraires avec leurs admirables reliefs, ces pro-fils et ces mains, ces mains, ces groupements de mains, cette incomparable profondeur de sentiment, cet art et presque: cette sagesse. Et puis Tanagra. Voilà une source de vie éternelle!
{La Vénus de Milo est pour moi trop moderne. Mais la Nikè de Samothrace, la déesse de la victoire montée sur sa coque de navire, avec son mouvement admirable et le vent du large dans ses vêtements, voilà pour moi la mer-veille et tout un monde. Voilà la Grèce. Voilà la grève, la mer et la lumière, le courage et la victoire. Et puis, les stèles funéraires avec leurs admirables reliefs, ces pro-fils et ces mains, ces mains, ces groupements de mains, cette incomparable profondeur de sentiment, cet art et presque: cette sagesse. Et puis Tanagra. Voilà une source de vie éternelle!
Auguste Rodin, Rainer Maria Rilke}
30.4.15
Pouco depois das 19:30h, sai do metro e avança pela Rue Rambuteau. Pouco mais de dez minutos e chega ao centre culturel suisse. Feliz, daqui pouco comemorará o Dia Internacional do Jazz, ouvindo Jerry Léonide. Marie far-lhe-á companhia.
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