Não há no mundo filha melhor, mais amiga da sua mãe. É assim que a D. Etelvina enche o peito para falar da única filha que Deus lhe deu. No coração de mãe abençoada, o mundo, para termo de comparação, poderá não ser muito maior do que a pequena vila onde sempre viveu e o que lhe chega pela televisão, mas isso não lhe faz abrandar o juízo maternal. O maior gesto de amor, chegada a filha à altura de estudar para a profissão, foi abriu-lhe os braços e pedir-lhe que voasse e fosse tratar da sua vida e ser muito feliz. Não ia agora tê-la debaixo da saia toda a vida, isso é que não, minha rica filhinha, remata. Não chora, mas o brilho nos olhos denuncia-lhe a solidão.
24.6.15
23.6.15
Parece um caso típico de soberba encoberta, coisa de fraca autoestima em criança, talvez uma puberdade aflita, entre o acne bexigoso e a masturbação ineficaz. A verdade é que não há mão de senhora ou senhorita que ele não beije, encantando-as a deleite, enquanto lhes elogia a frescura da pele, na sua voz embargada. Consola-se, numa eterna necessidade de lhes agradar, de lhes saber os batimentos mais acelerados por arte sua. Aos cavalheiros não mostra má cara, mas arrepia caminho na conversa. Remata sempre com um artístico encolher de ombros, escusa-se ao tema futebolístico e cita amiúde Eça ou Camilo, para ajeitar alguma opinião menos palavrosa. No café, a D. Amélia, tremelicante, distingue-o no tratamento e insiste na fórmula já gasta, Sr. Doutor, que gosto em vê-lo!, enquanto ajeita a permanente e o avental. Fá-lo com tal graciosidade nos gestos e candura na voz, que nem mesmo o esposo de quase quatro décadas, acompanhando alguma aguardente velha, numa das mesas mais próximas do balcão, lhe pede o decoro que se espera de uma mulher casada. Nas mesas circundantes, dos rostos antes moles e apáticos, florescem agora sorrisos abertos e olhos ansiosos. Todas querem ser a sua menina, a primeira no elogio, definindo-se desta forma a hierarquia no roseiral para o resto do dia.
20.6.15
A tia Miquelina foi à Suiça ver a filha em Abril e de lá já não voltou. As ruas tão limpas, os canteiros cheios de flores, as matinés na Associação, aos domingos à tarde. Já mandou ordens ao irmão que lhe venda as galinhas e os coelhos e, pelo amor a S. Francisco de Assis, a quem a tia Miquelina sempre devotava a boa parição das fêmeas da capoeira, lhe tome conta da Malhada, até que o genro, em visita à mãe, operada às cataratas no início do próximo mês, lha leve. Encontrara a pobre bicha ainda pequena, há mais de seis anos, escondida no meio de um silvado, depois de ter levado pancada de automóvel ou de alguma mão sem coração. Miava de dar dó, assustada e cheia de fome, mas felizmente sem nada partido, como depois de um exame preliminar pelas mãos sábias do Sr. Gomes, o veterinário, se veio a saber. A tia Miquelina passou a tarde inteira, de braços e mãos picados, dentro da roupa preta, sob o sol abrasador de Agosto, teimando em não desistir até tirar o pobre bichinho de lá. Valeu-lhe a latinha de atum, que se lembrou de ir buscar a casa. Depressa se habituaram uma à outra, amparando-se entre o silêncio, a necessidade e a companhia. A tia Miquelina nunca mais chorou, nas idas ao cemitério.
7.6.15
{CREONTE: Levá-la-ei para onde o caminho estiver deserto de pegadas humanas, e ocultá-la-ei viva numa caverna escavada na rocha, dando-lhe de alimento só o necessário para fugir ao sacrilégio, a fim de que a cidade evite qualquer contaminação. E aí, se ela pedir ao Hades - único dos deuses que venera -, talvez lhe seja concedido não morrer, ou ficará finalmente a saber, embora tarde, que prestar culto a esse deus é trabalho escusado.
Antígona, Sófocles}
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| Antigone - Frederic Leighton |
5.6.15
Diz Marina, enquanto sorve a colher do gelado, que a melhor amiga se vai casar. O olhar morre-lhe na mesa redonda da pastelaria. Continua a conversa, num tom mais lento, dizendo que o namorado da amiga a pediu em casamento em Paris, bem no cimo do Torre Eiffel. Isabel, prima direita, divorciada e sem filhos, atalha-lhe a tristeza afirmando que aquilo é um cliché, nenhuma relação resulta por causa de um cliché. Marina riposta, numa voz alterada, não é um cliché, é romântico! Credo, Isabel, és tão azeda! Os olhos de Isabel brilharam, rasos de água, e a voz tremeu-lhe, quando falou, e tu és uma tola, nada sabes da vida. Levantou-se e saiu. Durante mais de um mês, as primas não se falaram.
2.6.15
31.5.15
Na sombra da grande glicínia violeta-claro, enquanto bebem os seus cafés em copos altos com gelo, as mulheres conversam sobre a vida de uns e outros. De todas, a que se consegue ouvir melhor, com a sua voz de comando, é a D. Deolinda. Tenta motivar as outras para uma marcha de protesto, por causa da falta de médicos no centro de saúde. Todas concordam que aquilo não pode ser, ficar assim, uma vila inteira, com apenas dois médicos, e um deles quase nem se percebe, que é espanhol ou venezuelano ou lá o que é. Agora falam todas ao mesmo tempo, contam, cada uma, a sua ida mais recente ao posto médico e o tempo que lá se perde. Algumas recordam o Sr. Pereira, que acabou por falecer na ambulância dos bombeiros, a caminho da cidade, depois de duas horas à espera. O caso, ocorrido no verão passado, tinha dado muito que falar e até tinha passado nas notícias nacionais.
D. Deolinda, viúva desde cedo, com dois filhos pequenos na altura para criar, sempre foi uma mulher aguerrida e decidida, com jeito para a organização. Não há uma marcha, vigília ou procissão na vila, em que ela não esteja à cabeceira. Nem o padre Eusébio, de jeito casmurro, ousa retirar-lhe a liderança. Ainda o tentou uma vez, logo quando chegou à vila, e quase ficou sem a paróquia.
D. Deolinda levanta o tom de voz, para que se faça silêncio entre as raparigas, e propõe a marcha já para a próxima sexta-feira, só precisa de tempo para fazer o post no facebook, avisar a gnr e falar com os jornais da região e com as televisões. Durante a semana é partilhar com toda a gente. O costume, concordam?
Como um batalhão da infantaria, todas respondem em uníssono que sim e começam a preparar as palavras de ordem para os cartazes. Alguém sugere que se deviam vestir-se de preto para dar mais nas vistas, algumas ainda contestam, que está muito calor para isso, mas acabam todas por concordar. Todas de preto, sim, que a vila está de luto, gritam.
Nesta algazarra, um casal de turistas de meia-idade, que aproveitava o miradouro do café sobre o rio para tirar as fotografias da praxe, acaba por se levantar e abandonar as duas águas das pedras quase cheias. Pelas expressões faciais incomodadas, percebe-se que devem estar a maldizer o guia turístico que lhes afiançava, the natives are very calm and peaceful.
28.5.15
Conta a Joaninha que a prima Helena lhe escreveu, que está numa aflição de dar dó. Casada à pressa para esconder a barriga de dois meses, já vai grávida do terceiro, que há-de nascer para Dezembro. Com os filhos veio o peso, carne que não era sua, e da bela rapariga de antigamente, a mais chamada para dançar nos bailes da casa do povo, apenas resta uma mulher amargurada. O marido, um primo em segundo grau, sempre foi de se encostar, um roça-esquinas, esclarece a Joaninha, entre dentes, ia fazendo uns biscates aqui e ali, quase sempre na construção, mas há coisa de um ano, o patrão foi para Angola, e desde essa altura nunca mais arranjou nada. O patrão ainda lhe perguntou se ele queria ir também, mas ele disse logo que trabalhar p'ra pretos, nem morto! Helena, que ganha pouco mais do que o ordenado mínimo na fábrica do calçado lá da vila, anda farta de chorar. Às bebedeiras, que são diárias, tantas vezes com um olho negro à mistura, porque ele com os copos nem sabe o que faz, juntou-se agora um par de assistentes da segurança social, com caras de fuinhas, a bater-lhe à porta todas as semanas. Que vêm saber dos meninos e da estrutura familiar. Joaninha pára por uns momentos, baixa a cabeça, como que para dar tempo à reflexão profunda daquele grupo que a escuta. Funga no lenço branco de papel, enquanto as suas ouvintes, público experiente nestas coisas que são as novelas da vida, aproveitam o momento para reforçar os laços de empatia com a triste história que Joaninha partilha. Suspiram, umas e outras, cada uma à sua maneira, enquanto vão lamuriando, coitadinha... quem diria... mas que tristeza... Joaninha, já mais calma e com a lágrima segura, reinicia a descrição do calvário familiar.
27.5.15
«Escrever leve, facilmente digerível, interessante e peculiar. Como um sopro de pó de talco ou o flutuar de um longo vestido azul. Se pretender incidir, escolher a ironia elegante, se pretender o afago ao ego, palmilhar léguas acenando. No caso concreto, aconselho a simplicidade do retrato e a singularidade da profissão. De momento, registo bastante aceitável.»
Apareceu esta tarde na velha caixa do correio, embutida no portão de ferro. Dentro de um envelope branco, sem timbre, remetente nem ao cuidado, em papel grosso de qualidade, as palavras desenhadas a lápis de carvão. A costureira agradece mentalmente semelhante preocupação. Arrisca uma interpretação, enquanto inspira a mensagem. Ainda é possível sentir o rasto da tangerina, a folha do limão, talvez hortelã ou um traço a musgo, a madeira húmida e o almíscar pulsante.
25.5.15
Tão triste anda Guiomar, e tão magrinha, que ontem bem cedo, no salão da Cristina, já se comentava. Umas diziam que é doença, outras que tem a mãe a morrer, há quem diga que aquilo tem jeitos de ser desgosto de amor, julgava ter diamante, descobriu que afinal é moissanite. Especulação para todos os gostos. À Guiomar ninguém pergunta, que da sua vida, diziam todas, briosas das suas boas maneiras, cada um é que sabe.
20.5.15
{Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas}
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas}
Lê novamente o poema de António Ramos Rosa, escrito a lapiseira azul nas costas de um talão do supermercado da D. Arminda. Sorri ao ler também a lista das compras, como se o pão centeio e o quilo de laranjas fossem promessa de um pequeno-almoço depois do grito. Quem teria perdido na calçada tamanha preciosidade? Guarda o papel no bolso da gabardine, sentindo-se a fiel guardiã de um tesouro sagrado. Às primeiras gotas de chuva, corre em direcção à banca da fruta. Não se pode adiar o coração, tão pouco as primeiras cerejas do Fundão.
19.5.15
A 19 de Janeiro de 1729, uma quarta-feira, Mariana Vitória, princesa espanhola, e Maria Bárbara, princesa portuguesa, trocaram de país e de estado civil, a meio do rio Caia, tudo com pompa e muita circunstância, numa ponte e castelo de madeira construídos apenas e de propósito para o real casamento duplo. Aguardavam-nas, respectivamente, o infante D. José e o infante D. Fernando. A escolha do rio Caia, não foi mero acaso, antes uma escolha estratégica, para que nenhum dos monarcas ficasse na desvantagem do solo estrangeiro. Acompanhava a comitiva da princesa portuguesa, o compositor italiano Domenico Scarlatti, que foi mestre da capela real portuguesa do Rei D. João V e também professor de música de Maria Bárbara, que, segundo alguns relatos da época, era exímia cravista. Foi ele o responsável pela música da cerimónia da troca das princesas. Não se sabe que composições terá criado e interpretado, mas a ideia acompanha bem com este fandango.
18.5.15
Eu já não percebo nada, esbraceja o Sr. Victor na mesa do lado. Vêm agora falar disso do acordo ortográfico, de tirar as letras que não se lêem, mas isso, que eu saiba, já o pessoal fazia. O Sr. António, que o acompanha na bica da manhã, quer saber melhor do que é que ele está a falar, e o Sr. Victor continua. Então, a minha filha, que é professora de português, veja bem, professora de português - enfatiza ele -, quando o meu neto nasceu, veio toda melosa dizer-me que o petiz iria ter o nome do avô. Eu, claro, gostei de saber. Pois sabe como se chama a criança? Sabe? V-í-t-o-r! Então isso é lá o mesmo? Não é!
15.5.15
Hoje não sobeja tempo para as palavras, tem dois pares de calças do Sr. Maurício, que precisam de costuras rebatidas. O Sr. Maurício é freguês desde o princípio, quando se zangou com a D. Henriqueta, antiga costureira, que entretanto se reformou. Calhou uma vez, numa camisa, D. Henriqueta à pressa, ter-lhe feito ponto sobreposto onde deveria ser pesponto, e o Sr. Maurício, com reunião de japoneses lá na fábrica na manhã seguinte, e sem opção na mesma cor, não lhe perdoou. Conhecedora do terrível evento e de tão sensível feitio, a costureira triste não se atreve a falhar no ponto e cala por agora a escrita.
14.5.15
13.5.15
Não é de hoje que na vila se critica o Chico, rapaz jeitoso, a caminho dos quarenta, porque é mulherengo, passando a vida a trocar de mulher. Não inspira confiança, é o que é. Já o Jorge da Maria Helena, meio-irmão do Chico, casado há sete anos e pai babado de uma menina de dois, é ao contrário. Um rapaz sério e generoso que só visto. Que o diga a Cristina, com quem se encontra todas as quintas-feiras no motel da cidadezinha mais próxima.
12.5.15
«A vida não é dada a grandes fantasias, minha filha», dizia-lhe a avó Belarmina, enquanto cerzia as meias do avô Joaquim. Mas Cristina, a neta, tinha nascido sonhadora, habitada por borboletas de papel e unicórnios gigantes. Da mãe, que morrera no parto, herdara também o sorriso solar e os olhos brilhantes. Em criança, queria ser professora ou enfermeira, poder ajudar o próximo. Mais tarde escolheu ser jornalista. Afinal o que queria mesmo era ajudar a salvar o mundo.
11.5.15
De mão dada, sobem a rua, sabendo que são cochicho do muro em frente. Os homens cobiçam-lhes a sorte, as senhoras invejam os sorrisos límpidos. Uns e outros observam o par que lentamente caminha para o café. Deolinda não esperava que João se lhe declarasse assim, num dia de semana, logo pela manhã, de braços carregados de gladíolos, encostado ao portão de ferro. Feliz, aperta-lhe a mão.
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