A felicidade, minha querida menina, é ver um gato a dormir e um bando de andorinhas voar, chilreando. E é aceitá-la, não a procurando.
6.9.15
4.9.15
{É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade}*
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| Justina Blakeney |
Enquanto a costureira lhe alargava a cinturinha da saia, vítima do mês do geladinho da tarde e das bolinhas de berlim com as netas, a D. Cândida passava o dedo pelo seu tablet, prenda de natal do seu filho mais velho, abanado a cabeça em sinal de desacordo. Por fim, ergue o olhar e remata para o ar: Você já viu estas madames? - o tom era jocoso -, Passam as férias no bem bom, mal chega Setembro, vão logo buscar umas fotografias dos pobrezinhos, porque são todas umas Parreira Jonet e pensam imeeenso na pobreza dos outros. Mas que vergonha. Não há pachorra!
A costureira pára a máquina e, com um sorriso trocista, pergunta: Mas então as senhoras não podem ser solidárias, ou não podem ir de férias, D. Cândida? D. Cândida levanta-se, elegantemente, ajeita o saiote com a mão esquerda, na direita, o tablet parece agora um leque, e caminha rapidamente pelo tapete em direcção à costureira. Sem dizer palavra, coloca-lhe o aparelho à frente, enquanto vai passando o dedo. Depois de meia dúzia de imagens, olha para a costureira e diz: Vê o que lhe digo? Percebe? Tão depressa estão a vender trapos e bugigangas, como estão a salvar os coitadinhos, são umas empreendedoras do social, só lhe digo...
A costureira pára a máquina e, com um sorriso trocista, pergunta: Mas então as senhoras não podem ser solidárias, ou não podem ir de férias, D. Cândida? D. Cândida levanta-se, elegantemente, ajeita o saiote com a mão esquerda, na direita, o tablet parece agora um leque, e caminha rapidamente pelo tapete em direcção à costureira. Sem dizer palavra, coloca-lhe o aparelho à frente, enquanto vai passando o dedo. Depois de meia dúzia de imagens, olha para a costureira e diz: Vê o que lhe digo? Percebe? Tão depressa estão a vender trapos e bugigangas, como estão a salvar os coitadinhos, são umas empreendedoras do social, só lhe digo...
2.9.15
Dizem que somos o que escrevemos e eu penso no homem da repartição das finanças, desenhando arabescos e poemas de amor, com tanto fulgor, em rodapés de guardanapos brancos com listas azuis e amarelas, à rapariga da pastelaria, bom apetite, obrigado, volte sempre, minha querida, meu pastel de nata, meu galão quente.
22.8.15
O Príncipe mia desalmadamente, imitando o choro de um bebé. Esqueceu-se de lhe comprar latinhas no dia anterior e ele, gato palaciano, habituado às mordomias a tempo e horas, castiga-a logo pelas seis da manhã. Antes das nove, hora a que a D. Cremilde abre o mini-mercado, não haverá forma de acabar com a triste sinfonia.
21.8.15
Ouve-as, na mesa do lado, coca-colas ao meio, a de rabo de cavalo fala do italiano super fofo que conheceu no festival da semana passada, a outra abana a cabeça e vai dizendo que isso nunca dá certo. São novas, impossível dizer a idade certa daqueles corpos delegados e caras maquilhadas a rigor, mas não terão ainda chegado aos vinte e cinco. A primeira garante que pode dar, depende das cenas e da vontade de cada um, mas a segunda volta à carga, jura que não, relações à distância nunca funcionam, uma relação é estar juntos, fazer coisas juntos, se não estão juntos, fazem o quê? quase se engasga na interrogação. À sensatez da amiga, a primeira responde, teclamos, não é o que tu passas o tempo a fazer com o Pedro?
15.8.15
De um tecido sintético de ruim qualidade, observou a manta de retalhos, que se distribuía confusamente pelos bancos, com a distância suficiente para não se deixar enganar. Garotos a brincar de pais zangados com um bebé-chorão tão bonito, rodeados de fedelhos de poupas e ténis da moda e fedelhas de sapatos de alterne e vestidos de poliéster em tamanhos e cortes errados. Cabelos empastados de gel, brilhantes espalhados pelo corpo, banda desenhada nas unhas das mãos. Sedução de feira e carrinhos de choque. Talvez julguem que a igreja seja uma espécie de discoteca com bar aberto e ladies night, onde as crianças também podem entrar. Gritos. Irritações impossíveis de evitar, quando se veste tanto material contrafeito.
De onde lhes vem a vontade do baptizo, se tão pouco conhecem o sinal da cruz?
9.8.15
Com as festas dos santos padroeiros e os casamentos de verão, a costureira não tem tido mãos a medir por estes dias. É um sobe e desce de bainhas, pinças para fazer, que o cavalheiro emagreceu, outras para desfazer, que a senhora anda nervosa, um baptizado decidido à última da hora, uma noiva com desejos de refazer a cauda pela terceira vez. A tudo isto, a costureira não se nega, solicitações urgentes em tempos de férias grandes é algo a que já se habituou. Sabe que o mais difícil é arranjar material, se não o tiver em stock, porque os revendedores estão todos a banhos, e aturar as freguesas emproadas, que se julgam sempre para além de qualquer ordem de chegada. Todos os anos se embufavam, dizendo que é a última vez, que da próxima vão à cidade, onde é tudo mais depressa e mais barato, mas no ano seguinte, lá estavam novamente, sentadas de perna traçada, bebericando a limonada da costureira, como se nada se tivesse passado. Há clientela fiel, infelizmente, pensa a costureira.
5.8.15
Agosto, sem gosto ou grande desgosto.
A doença há-de ter nome, uma síndrome qualquer, que, em calhando, os meios de comunicação social hão-de abordar à exaustão do café da manhã ao programa da tarde. Em uníssono com as palmas das reformadas e das desempregadas, todas intoxicadas de pó-de-arroz, haverá lágrimas convulsas, rimel que se esborrata, como as vidas que se desfazem, cenas desenquadradas de dar dó.
A doença come as entranhas, sabemos, mas também rói os ossos e chupa as veias, como guloseima de refeição. Não há caverna onde ela não busque a sombra, nem toca onde não se esconda. O doente é habitado à revelia, para se transformar num prédio em ruínas. Teima que não, mas reza em segredo para se manter vivo. E a voz continua...
Nunca gostei de Agosto.
2.8.15
1.8.15
Entreabre ligeiramente a cortina branca e espreita a rua, procurando o barulho que a acordou. O filho da D. Isaura, garoto para doze anos, tenta, em vão, puxar a coleira do cachorro, que mais parece um vitelo. Irritado, grita-lhe para que se mexa, mas o animal continua sentado, com a língua de fora. Não grites, fala-lhe com firmeza, diz-lhe o pai, encostado ao muro, um pouco mais à frente. Desce a persiana. Na penumbra, volta para a cama, onde um abraço a espera.
28.7.15
[Quim]
Chegou a Metz perto da hora de almoço. Como de costume, desde que Sónia o tinha deixado, depois de descarregar o camião e tratar da papelada, decidiu apanhar um táxi e ir dar uma volta pelo centro, talvez comer qualquer coisa no Chez Mauricette, ver se a loira boazona que o tinha atendido no mês passado, ainda lá trabalhava. Estava disposto a levá-la para a suite que tinha reservado num dos hotéis centrais de quatro estrelas. Sozinho, não voltou a ficar na pensão St. Clément, lembrava-lhe demasiado Sónia. Confirmou o dinheiro que tinha carteira, cento e vinte euros, tinha de chegar, a gaja de certezinha que é daquelas que aceita uma "recordação". Uma puta, são todas.
A perna doía-lhe cada vez mais, percebeu ao dobrar-se para entrar no pequeno Citroen que servia de táxi. Tinha saído de Castelo Branco apenas com um pequeno formigueiro, nem tinha feito caso. Se a dor não abrandasse, teria de passar numa farmácia para comprar alguma coisa, nada muito forte, contava regressar a Portugal no dia seguinte. Tirou a pequena garrafa de conhaque do bolso do quispo e deu um trago. O taxista, um preto esguio, sorriu-lhe pelo retrovisor. Comment allez-vous, monsieur?
27.7.15
Bem sabe que nos seus silêncios não há diálogo, apenas uma morte que se revelou lenta, preferindo murchar-lhe os corpos primeiro, ao invés de lhes decepar misericordiosamente aquela secura. Houve um tempo, quando as mãos se procuravam sem reservas e sem razões, em que sentia que falavam mesmo quando estavam calados. Esse tempo passou.
22.7.15
Não se fala de outra coisa na vila, o filho da D. Maria Zé engravidou a namorada de Lisboa. Foi um ai Jesus, um Deus nos acuda, que ainda andam os dois a estudar, ele no mestrado em Gestão e ela, já empregada a meio tempo na recepção de um consultório, a ver se acaba o curso de dentista. Bem se tentou que ela fosse abortar, já que a coisa se tinha dado por descuido, mistura na medicação, não havendo desejo algum em fraldas e biberons, mas a rapariga fincou o pé e disse que não. Do namoro só já a lembrança vaga, agora é uma guerra constante, discute-se a pensão de alimentos, trocam-se acusações, aponta-se o dedo. D. Maria Zé, desempregada há dois anos da fabrica do calçado, diz que não se mete mais, eles são adultos, que se entendam. Mas o rosto, envelhecido pelos dias cinzentos de chumbo e miséria, não consegue esconder a tristeza. O que será daquela criança?
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