4.10.15

-- É verdade que andas metida com um homem casado? - atira-lhe a mãe, de chofre. -- E que tens tu a ver com isso?!, quis ela responder, mas as palavras queimavam-lhe a garganta. Então era isso, alguém lhes tinha ido contar do António. Já sabiam.
-- Não percebi. Eu ando metida com um homem casado?... - as palavras soavam a falso. Apanhada de surpresa, nunca conseguia manter uma mentira, especialmente com a mãe. 
-- Percebeste muito bem, Ana Maria. Não te faças de sonsa! Quem é ele? Quem é esse porco? Eu e o teu pai queremos saber quem é! - a mãe gritava, agitando o corpo no sofá. -- Não saímos daqui, sem saber quem é! Que vergonha! Que vergonha, Ana Maria! Toda a gente já comenta, lá na vila. Tu não tens vergonha?! Foi essa a educação que te demos?! Hã?! Fala, responde ao que te pergunto, minha sonsa! 
Parecia sentir prazer na aflição da filha. Fora sempre assim.

3.10.15

Um dia apareceram-lhe os dois à porta, pai e mãe, com mais de duas horas de caminho, indecisos, no pequeno átrio do elevador, entre tocar à campainha ou bater à porta. Uma camisa azul de domingo, no pai, o cabelo recém-pintado, com unhas a condizer, na mãe. O espanto foi tal, que demorou alguns segundos, séculos, pareceram-lhe, a conseguir articular a primeira frase,
-- ...?O que estão aqui a fazer?!...
O pai recuou e fingiu interesse na instalação eléctrica do prédio, nunca se dera bem com perguntas directas, mas a mãe, empinando as mamas e o dedo, - aquele maldito tique de professora primária -, começou,
-- Bom dia também para ti, minha menina. E que mal tem, estarmos aqui? Somos nós que pagamos esta casa, não somos? Não nos convidas para entrar, ao menos? Mas que educação!...
Felizmente estava sozinha, o sexo ocasional, encontrado num bar de Santos, depois de várias rodadas de imperiais com o pessoal da faculdade, tinha saído perto das sete da manhã. Disse qualquer coisa de ir apanhar o comboio para o Cacém, ela nem percebeu. Abriu a porta o suficiente para ambos entrarem, enquanto percorria mentalmente a casa, tentando lembrar-se se já tinha posto os preservativos todos no lixo. Porra, mas que merda de visita era aquela?

26.9.15

É dos nervos, ela bem sabe, não vale a pena a resposta afiada na ponta da língua, ele anda nervoso e ela tem de ter paciência, lembrar-se de que também ela não é perfeita e uma vida a dois é mesmo assim, feitas de altos e baixos, montanhas e regadios, como dizia a mãe, nos dias em que o pai chegava a casa, já depois do jantar,  a cair de bêbado e a cantar é tão bom ser pequenino*.  Mas quando ele atira com o pão para o lado, enquanto blasfema, Mas que merda de pão é este, tão seco?, depois de grunhir que a massa não sabe a nada, ela, de talheres na mão, engole a raiva a custo e imagina a faca num vai e vem. Um dia, perde a cabeça.

-- Então e a filha do Pina, já se divorciou do marido? Ouvi dizer que estava a morar em casa dos pais há mais de dois meses...
-- Nada disso, então não sabes?! Empranhou outra vez e já voltou p'ra casa.
-- A sério? Olha, ainda bem, cada um é que sabe da sua vida, e se ainda gostavam um do outro e até aí vem mais um rebento, que sejam felizes.
-- Ó pá, que tu és mesmo cegueta!! Então não soubeste dos cochichos? Aquilo foi foda antiga, diz-se p'rá aí que o Toneca d'Águsta fartou-se de lhe mijar à parede, às tantas da madrugada... foi um falatório...
-- ?! Não sabia de nada. 
-- É verdade. E ela, espertalhona, vendo-se com mais um no bucho, sem marido p'ra pagar as contas, acho que o gajo ganha bem, trabalha nisso dos seguros, sem pai para mais um garoto, que o Toneca pôs-se logo na alheta e foi p'rá Suiça, sem casa, a viver de emprestado nos pais, e sem dinheiro, lá engendrou alguma noite de reconciliação p'ra voltar p'ró corno... Sempre teve o diabo no corpo, aquela... que vergonha a daqueles pais... e logo filha única.
-- Olha, não sei, as pessoas gostam muito de falar, mas não se pode acreditar em tudo. Há muita gente que só gosta é de meter veneno. Não sei se será tudo assim.
-- Mas qual quê, catano?! Estou 'ta dizer, já do primeiro, encornou o marido. Então não se vê logo?! Loirinho como o Zé Pipas, tromba dum, focinho do outro. Uma putéfia, desde garota, nunca me enganou.
-- ...


6.9.15

Trouxe os dois cafés para a mesa da cozinha e sentou-se em frente à costureira. No parapeito da janela aberta, o Riscas dormia, com aquele ar satisfeito que só os gatos conhecem.
-- Vou-te confessar uma coisa, um segredo, mas não te rias. 
-- Não rio, diga.
-- Dá-me um prazer incomensurável meter a louça suja no lava-louça e deixá-la lá, até me apetecer ir lavá-la. É verdade, uma parvoíce que só me envergonha, minha querida, mas assim é. Se a tua avó fosse viva, que Deus a guarde em eterno descanso, tinha um colapso, se entrasse agora aqui e visse aqueles pratos sujos.
-- Parvoíce nenhuma, tia, ...é como o poema, Ter um livro para ler e não o fazer
-- Ora, nem mais. O teu tio ralha comigo. Está sempre a dizer que a ponha na máquina, mas eu nunca gostei de a lavar na máquina, parece que ainda dá mais trabalho.
-- Há quem diga que lavar a louça à mão é uma terapia. 
-- Ahah! Uma irritação, isso sim. 
O gato espreguiça-se, abre um olho, fecha-o, indiferente às duas mulheres, e volta a dormir. O tio, sentado no sofá da sala, mesmo ao lado, mete-se na conversa:
-- Sabes bem que eu gosto das coisas limpas, se chega alguém e vê a loiça suja, pensa o quê, mulher? Olha, como este do jornal, o Saraiva*, que diz que somos uns porcos, porque somos latinos, com sangue árabe... e diz que o grau de limpeza determina o desenvolvimento educacional do povo...
-- ?? Estas a mangar comigo, marido?
-- Estou nada. Vá lá que sou eu que limpo a casa de banho, ... diz o homem que uma casa de banho limpa dá uma imagem positiva do sítio. Ehehehe! 
-- Olha cá, meu menino, não queres dar uma imagem positiva à cozinha também?! Ou chama aí o Saraiva, que os tachos chegam para os dois! Pffff....
Riem-se todos. A louça terá de esperar.


*Crónica de José António Saraiva, Sol, de 4/9/2015, que pode ser lida (partes dela) no excelente blog malomil.
Se ficar imóvel, controlar a respiração, segurando o peito, bem quietinha, atrás da cortina de veludo, a avó diz que ninguém dará com ela.
É o jogo da vida.

A felicidade, minha querida menina, é ver um gato a dormir e um bando de andorinhas voar, chilreando. E é aceitá-la, não a procurando.

4.9.15

{É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade}*


Justina Blakeney

Enquanto a costureira lhe alargava a cinturinha da saia, vítima do mês  do geladinho da tarde e das bolinhas de berlim com as netas, a D. Cândida passava o dedo pelo seu tablet, prenda de natal do seu filho mais velho, abanado a cabeça em sinal de desacordo. Por fim, ergue o olhar e remata para o ar: Você já viu estas madames? - o tom era jocoso -, Passam as férias no bem bom, mal chega Setembro, vão logo buscar umas fotografias dos pobrezinhos, porque são todas umas Parreira Jonet e pensam imeeenso na pobreza dos outros. Mas que vergonha. Não há pachorra!
A costureira pára a máquina e, com um sorriso trocista, pergunta: Mas então as senhoras não podem ser solidárias, ou não podem ir de férias, D. Cândida? D. Cândida levanta-se, elegantemente, ajeita o saiote com a mão esquerda, na direita, o tablet parece agora um leque, e caminha rapidamente pelo tapete em direcção à costureira. Sem dizer palavra, coloca-lhe o aparelho à frente, enquanto vai passando o dedo. Depois de meia dúzia de imagens, olha para a costureira e diz: Vê o que lhe digo? Percebe? Tão depressa estão a vender trapos e bugigangas, como estão a salvar os coitadinhos, são umas empreendedoras do social, só lhe digo...


...esta costureira, que ainda respira sem dificuldades o calor acobreado de Setembro, do ano da graça de dois mil e quinze, seguirá atenta os estranhos acontecimentos do ano de mil novecentos e quarenta e nove. 

2.9.15

Dizem que somos o que escrevemos e eu penso no homem da repartição das finanças, desenhando arabescos e  poemas de amor, com tanto fulgor, em rodapés de guardanapos brancos com listas azuis e amarelas, à rapariga da pastelaria, bom apetite, obrigado, volte sempre, minha querida, meu pastel de nata, meu galão quente.

22.8.15

Amor perfeito em tons de azul.

Anna Remarchuk

O Príncipe mia desalmadamente, imitando o choro de um bebé. Esqueceu-se de lhe comprar latinhas no dia anterior e ele, gato palaciano, habituado às mordomias a tempo e horas, castiga-a logo pelas seis da manhã. Antes das nove, hora a que a D. Cremilde abre o mini-mercado, não haverá forma de acabar com a triste sinfonia.

21.8.15

Ouve-as, na mesa do lado, coca-colas ao meio, a de rabo de cavalo fala do italiano super fofo que conheceu no festival da semana passada, a outra abana a cabeça e vai dizendo que isso nunca dá certo. São novas, impossível dizer a idade certa daqueles corpos delegados e caras maquilhadas a rigor, mas não terão ainda chegado aos vinte e cinco. A primeira garante que pode dar, depende das cenas e da vontade de cada um, mas a segunda volta à carga, jura que não, relações à distância nunca funcionam, uma relação é estar juntos, fazer coisas juntos, se não estão juntos, fazem o quê? quase se engasga na interrogação. À sensatez da amiga, a primeira responde, teclamos, não é o que tu passas o tempo a fazer com o Pedro?

15.8.15

De um tecido sintético de ruim qualidade, observou a manta de retalhos, que se distribuía confusamente pelos bancos, com a distância suficiente para não se deixar enganar. Garotos a brincar de pais zangados com um bebé-chorão tão bonito, rodeados de fedelhos de poupas e ténis da moda e fedelhas de sapatos de alterne e vestidos de poliéster em tamanhos e cortes errados. Cabelos empastados de gel, brilhantes espalhados pelo corpo, banda desenhada nas unhas das mãos. Sedução de feira e carrinhos de choque. Talvez julguem que a igreja seja uma espécie de discoteca com bar aberto e ladies night, onde as crianças também podem entrar. Gritos. Irritações impossíveis de evitar, quando se veste tanto material contrafeito.

De onde lhes vem a vontade do baptizo, se tão pouco conhecem o sinal da cruz?

9.8.15

Com as festas dos santos padroeiros e os casamentos de verão, a costureira não tem tido mãos a medir por estes dias. É um sobe e desce de bainhas, pinças para fazer, que o cavalheiro emagreceu, outras para desfazer, que a senhora anda nervosa, um baptizado decidido à última da hora, uma noiva com desejos de refazer a cauda pela terceira vez. A tudo isto, a costureira não se nega, solicitações urgentes em tempos de férias grandes é algo a que já se habituou. Sabe que o mais difícil é arranjar material, se não o tiver em stock, porque os revendedores estão todos a banhos, e aturar as freguesas emproadas, que se julgam sempre para além de qualquer ordem de chegada. Todos os anos se embufavam, dizendo que é a última vez, que da próxima vão à cidade, onde é tudo mais depressa e mais barato, mas no ano seguinte, lá estavam novamente, sentadas de perna traçada, bebericando a limonada da costureira, como se nada se tivesse passado. Há clientela fiel, infelizmente, pensa a costureira.

5.8.15

Agosto, sem gosto ou grande desgosto.


A doença há-de ter nome, uma síndrome qualquer, que, em calhando, os meios de comunicação social hão-de abordar à exaustão do café da manhã ao programa da tarde. Em uníssono com as palmas das reformadas e das desempregadas, todas intoxicadas de pó-de-arroz, haverá lágrimas convulsas, rimel que se esborrata, como as vidas que se desfazem, cenas desenquadradas de dar dó. 
A doença come as entranhas, sabemos, mas também rói os ossos e chupa as veias, como guloseima de refeição. Não há caverna onde ela não busque a sombra, nem toca onde não se esconda. O doente é habitado à revelia, para se transformar num prédio em ruínas. Teima que não, mas reza em segredo para se manter vivo. E a voz continua...
Nunca gostei de Agosto.