27.12.15

O joelho tinha começado a doer e D. Lurdes avançava devagar. Ia a meio do corredor, quando lhe chegou a voz alterada da amiga, percebeu que D. Fátinha estava exaltada. Automaticamente decidiu virar costas à rota traçada, era um abuso, entrar assim pela intimidade das pessoas, onde tinha ela a cabeça, para não ter pedido à Marianinha que avisasse a mãe? Ia esperar na sala. Mal deu o primeiro passo em retaguarda, ouviu o grito: Mentiroso! Abusador! Estancou a passada e ficou sem saber o que fazer. Não queria acreditar, então afinal era verdade? e agora? avança? recua? deixa-se ficar ali e ouve o resto? Ai valha-me Nosso Senhor! Aflita nas suas preces, D. Lurdes decide voltar ao rés-do-chão. Sem saber ao certo o que fazer, mal acaba de descer as escadas, abre a porta da rua e sai de rompante. Atónita, de olhos demasiado abertos, regressa a casa o mais rápido que pode. As dores no joelho crescem como labaredas, ao virar a última esquina, não consegue evitar as lágrimas. Já à porta de casa, não aguenta mais e cai no chão de terra fofa do jardim e chora convulsivamente. Alguma coisa rebentou dentro de si.  


26.12.15

{Quanto mais urgente é a escrita / mais humilde o suporte.

Ana Tecedeiro}

Nour Kamel

Boas Festas a todos.

21.12.15

D. Lurdes saiu da missa e ajeitou o passo até ao nº 34 da rua principal, onde morava a D. Fátinha, que, em resultado de uma constipação mal curada, permanecia na cama há mais de três dias. Quem lhe abriu a porta foi a filha mais nova, a Mariana, a quem todos chamavam, desde mais tenra idade (e para vergonha da jovem, agora na puberdade, que guinchava que já não era uma criança), de Marianinha. Era uma rapariga de catorze anos, cabelo escorrido, pintado cor de azeviche, a tapar-lhe a cara, olhos carregados de cor preta e muitas borbulhas disfarçadas debaixo de várias camadas generosas de base.
 
-- Estás boa, Marianinha? E a tua mãe?
 
-- Tá tudo bem, D. Lurdes... A minha mãe tá no quarto, pode subir.
 
D. Lurdes ainda abriu a boca para perguntar pelo paizinho, mas Marianinha já tinha voltado para a sala, e pela algazarra de risinhos histéricos, falava com alguma amiga ao telefone.
Pois bem, se a rapariga a tinha mandado subir, é porque a mãe haveria de estar sozinha. Fechou a porta da entrada, não viesse alguma corrente de ar e subiu devagar os dezoito degraus, apoiando-se no corrimão de madeira. A dor no joelho esquerdo tinha voltado e sempre que o obrigava a dobrar, vinham-lhe umas picadas tão fortes na zona da rótula, que D. Lurdes só não chorava por vergonha. Foi por isso que não veio logo ver a D. Fátinha, quando esta caiu de cama, esperava que a dor no joelho passasse, mas como não havia meio e consulta só dentro de duas semanas, lá se meteu a caminho. A D. Fátinha, de quem muita gente falava mal em surdina, tinha sido sempre uma boa amiga, especialmente aquando da morte do seu Zé, não seria ela a virar-lhe agora as costas.
...
 
 

12.12.15

{Você a linha, e eu o linho, nosso amor /Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa

Gilberto Gil}


Izziyana Suhaimi

Foi uma cerimónia bonita, onde não faltaram os familiares e amigos mais próximos, em igual quantidade de gente anónima que também quis ofertar um último adeus. O padre, amigo da família, enalteceu o homem de bem. Os homens olharam cabisbaixos para as biqueiras dos sapatos, Qual de nós, a seguir? As senhoras, que não continham os pingos, fungavam baixinho, enquanto lamuriavam palavras gastas de ocasião. A viúva, embrulhada no luto a estrear, ia assoando vagarosamente o nariz. Dos colegas e clientes, vieram muitas coroas de flores, tantas que o homem da agência funerária teve de mandar vir mais um carro, Não estávamos à espera, mas que a senhora não se preocupasse, que tudo se havia de levar, olhe que coisa assim, tanto respeito e condolências, nunca ele tinha visto em vinte anos de serviço, que cerimónia bonita...
Longe dali, entre os gritos e correrias de duas crianças, uma mulher chorou.

28.11.15

Um Sol, que nasce das palavras.

Anna Remarchuk

-- Ó vezinha, mas tamem num'stá certo o qu'ele fez, matar assim a desgraçada.
-- Pois bem decerto que não, mas a culpa tamem foi dela, vezinha, e num me diga que não. Atão uma mulher casada num sabe que tem que se cumportar?! Atão fica assim de converseta c'u ôtro (e parece que já nem era a primeira vez), àquela hora da noite, num sítio p'queno, onde tudo se sabe, atão ela num sabia que podia ter problemas?! Mas que conversa? Parecia qu'estavà pedi-las...
-- Certo, vezinha, mas o homem tamem é munto violento, ai, é, é. Sempre foi. Mesmo c'u cachopo, dá-lhe cada chapadão às vezes... Eu, cu'as crianças, custa-me muito... olhe que custa...
-- Ó, mas aquilo tamem é um garoto endiabrado, é que só lhe dá pra fazer mal. Olhe que munta paciência tem às vezes o João. O fedelho é mau cum'ás cobras, saiu todo ó avô, o ti Franscisco, que Deus tenha em descanso, e a mãe tamem num lhe deve ter dado muita educação, só sabia era andar c'u ele debaixo da saia...
-- Mas agora as crianças são todas assim, vezinha, mais mexidas, são diferentes d'antigamente. Os nossos netos são iguais...
-- Ai isso é que num são!! É que nem se compara, Jesus, benza-nos Deus! Num são, não senhora! Têm educação. E ai dos meus netos, se num a tivessem. Nem eu admitia!
-- 'stá bem, mas olhe lá,  num se lembra daquela vez, ainda o garoto nem andava na escola, tinha prá aí uns quatro ó cinco anos, e ele lhe deu um puntapé nas costas cum tanta força, c'u garoto teve internado quase um mês? Atão aquilo são jeitos, senhor? Eu cá acho que não. É que nem tanto ao mar, nem tanto à terra, vezinha...
-- Óvi dezer que o apanhou a roubar cerejas naquilo do Cândido, aquilo se calhar nem mediu a força... acuntece, num é bem, num é, mas acontece, vezinha. Nunca lh'aconteceu? A mim já, a gente às vezes num mede a força, 'stá tão revoltada cum eles, que num mede a força.
-- Pois... olhe, num sei.  A mim nunca m'aconteceu, mas cada um sabe de si e Deus sabe de todos, mas a mim dá-me munta pena, munta pena, uma rapariguinha morrer assim tão nova. E deixar um filho tão pequenino por criar... Uma tristeza...
-- Atão e ele? Ele tamem estragou a vida toda, vezinha. Inda é capaz d'apanhar dois ó três anos. Fica cu'a vidinha toda estragada. Quem é que lhe dá trabalho depois?...
-- Pois... Que tristeza...
-- É a vida. Vou-me, que se faz tarde e inda tenho de fazer a janta.
-- Vá cum Deus. Tamem abalo. Té'amanhã.
-- Té'amanhã.

...



[Um obrigada especial à Maria, que me "lembrou" desta pobre salinha de costura abandonada.]

4.10.15

-- É verdade que andas metida com um homem casado? - atira-lhe a mãe, de chofre. -- E que tens tu a ver com isso?!, quis ela responder, mas as palavras queimavam-lhe a garganta. Então era isso, alguém lhes tinha ido contar do António. Já sabiam.
-- Não percebi. Eu ando metida com um homem casado?... - as palavras soavam a falso. Apanhada de surpresa, nunca conseguia manter uma mentira, especialmente com a mãe. 
-- Percebeste muito bem, Ana Maria. Não te faças de sonsa! Quem é ele? Quem é esse porco? Eu e o teu pai queremos saber quem é! - a mãe gritava, agitando o corpo no sofá. -- Não saímos daqui, sem saber quem é! Que vergonha! Que vergonha, Ana Maria! Toda a gente já comenta, lá na vila. Tu não tens vergonha?! Foi essa a educação que te demos?! Hã?! Fala, responde ao que te pergunto, minha sonsa! 
Parecia sentir prazer na aflição da filha. Fora sempre assim.

3.10.15

Um dia apareceram-lhe os dois à porta, pai e mãe, com mais de duas horas de caminho, indecisos, no pequeno átrio do elevador, entre tocar à campainha ou bater à porta. Uma camisa azul de domingo, no pai, o cabelo recém-pintado, com unhas a condizer, na mãe. O espanto foi tal, que demorou alguns segundos, séculos, pareceram-lhe, a conseguir articular a primeira frase,
-- ...?O que estão aqui a fazer?!...
O pai recuou e fingiu interesse na instalação eléctrica do prédio, nunca se dera bem com perguntas directas, mas a mãe, empinando as mamas e o dedo, - aquele maldito tique de professora primária -, começou,
-- Bom dia também para ti, minha menina. E que mal tem, estarmos aqui? Somos nós que pagamos esta casa, não somos? Não nos convidas para entrar, ao menos? Mas que educação!...
Felizmente estava sozinha, o sexo ocasional, encontrado num bar de Santos, depois de várias rodadas de imperiais com o pessoal da faculdade, tinha saído perto das sete da manhã. Disse qualquer coisa de ir apanhar o comboio para o Cacém, ela nem percebeu. Abriu a porta o suficiente para ambos entrarem, enquanto percorria mentalmente a casa, tentando lembrar-se se já tinha posto os preservativos todos no lixo. Porra, mas que merda de visita era aquela?

26.9.15

É dos nervos, ela bem sabe, não vale a pena a resposta afiada na ponta da língua, ele anda nervoso e ela tem de ter paciência, lembrar-se de que também ela não é perfeita e uma vida a dois é mesmo assim, feitas de altos e baixos, montanhas e regadios, como dizia a mãe, nos dias em que o pai chegava a casa, já depois do jantar,  a cair de bêbado e a cantar é tão bom ser pequenino*.  Mas quando ele atira com o pão para o lado, enquanto blasfema, Mas que merda de pão é este, tão seco?, depois de grunhir que a massa não sabe a nada, ela, de talheres na mão, engole a raiva a custo e imagina a faca num vai e vem. Um dia, perde a cabeça.

-- Então e a filha do Pina, já se divorciou do marido? Ouvi dizer que estava a morar em casa dos pais há mais de dois meses...
-- Nada disso, então não sabes?! Empranhou outra vez e já voltou p'ra casa.
-- A sério? Olha, ainda bem, cada um é que sabe da sua vida, e se ainda gostavam um do outro e até aí vem mais um rebento, que sejam felizes.
-- Ó pá, que tu és mesmo cegueta!! Então não soubeste dos cochichos? Aquilo foi foda antiga, diz-se p'rá aí que o Toneca d'Águsta fartou-se de lhe mijar à parede, às tantas da madrugada... foi um falatório...
-- ?! Não sabia de nada. 
-- É verdade. E ela, espertalhona, vendo-se com mais um no bucho, sem marido p'ra pagar as contas, acho que o gajo ganha bem, trabalha nisso dos seguros, sem pai para mais um garoto, que o Toneca pôs-se logo na alheta e foi p'rá Suiça, sem casa, a viver de emprestado nos pais, e sem dinheiro, lá engendrou alguma noite de reconciliação p'ra voltar p'ró corno... Sempre teve o diabo no corpo, aquela... que vergonha a daqueles pais... e logo filha única.
-- Olha, não sei, as pessoas gostam muito de falar, mas não se pode acreditar em tudo. Há muita gente que só gosta é de meter veneno. Não sei se será tudo assim.
-- Mas qual quê, catano?! Estou 'ta dizer, já do primeiro, encornou o marido. Então não se vê logo?! Loirinho como o Zé Pipas, tromba dum, focinho do outro. Uma putéfia, desde garota, nunca me enganou.
-- ...


6.9.15

Trouxe os dois cafés para a mesa da cozinha e sentou-se em frente à costureira. No parapeito da janela aberta, o Riscas dormia, com aquele ar satisfeito que só os gatos conhecem.
-- Vou-te confessar uma coisa, um segredo, mas não te rias. 
-- Não rio, diga.
-- Dá-me um prazer incomensurável meter a louça suja no lava-louça e deixá-la lá, até me apetecer ir lavá-la. É verdade, uma parvoíce que só me envergonha, minha querida, mas assim é. Se a tua avó fosse viva, que Deus a guarde em eterno descanso, tinha um colapso, se entrasse agora aqui e visse aqueles pratos sujos.
-- Parvoíce nenhuma, tia, ...é como o poema, Ter um livro para ler e não o fazer
-- Ora, nem mais. O teu tio ralha comigo. Está sempre a dizer que a ponha na máquina, mas eu nunca gostei de a lavar na máquina, parece que ainda dá mais trabalho.
-- Há quem diga que lavar a louça à mão é uma terapia. 
-- Ahah! Uma irritação, isso sim. 
O gato espreguiça-se, abre um olho, fecha-o, indiferente às duas mulheres, e volta a dormir. O tio, sentado no sofá da sala, mesmo ao lado, mete-se na conversa:
-- Sabes bem que eu gosto das coisas limpas, se chega alguém e vê a loiça suja, pensa o quê, mulher? Olha, como este do jornal, o Saraiva*, que diz que somos uns porcos, porque somos latinos, com sangue árabe... e diz que o grau de limpeza determina o desenvolvimento educacional do povo...
-- ?? Estas a mangar comigo, marido?
-- Estou nada. Vá lá que sou eu que limpo a casa de banho, ... diz o homem que uma casa de banho limpa dá uma imagem positiva do sítio. Ehehehe! 
-- Olha cá, meu menino, não queres dar uma imagem positiva à cozinha também?! Ou chama aí o Saraiva, que os tachos chegam para os dois! Pffff....
Riem-se todos. A louça terá de esperar.


*Crónica de José António Saraiva, Sol, de 4/9/2015, que pode ser lida (partes dela) no excelente blog malomil.
Se ficar imóvel, controlar a respiração, segurando o peito, bem quietinha, atrás da cortina de veludo, a avó diz que ninguém dará com ela.
É o jogo da vida.

A felicidade, minha querida menina, é ver um gato a dormir e um bando de andorinhas voar, chilreando. E é aceitá-la, não a procurando.

4.9.15

{É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade}*


Justina Blakeney

Enquanto a costureira lhe alargava a cinturinha da saia, vítima do mês  do geladinho da tarde e das bolinhas de berlim com as netas, a D. Cândida passava o dedo pelo seu tablet, prenda de natal do seu filho mais velho, abanado a cabeça em sinal de desacordo. Por fim, ergue o olhar e remata para o ar: Você já viu estas madames? - o tom era jocoso -, Passam as férias no bem bom, mal chega Setembro, vão logo buscar umas fotografias dos pobrezinhos, porque são todas umas Parreira Jonet e pensam imeeenso na pobreza dos outros. Mas que vergonha. Não há pachorra!
A costureira pára a máquina e, com um sorriso trocista, pergunta: Mas então as senhoras não podem ser solidárias, ou não podem ir de férias, D. Cândida? D. Cândida levanta-se, elegantemente, ajeita o saiote com a mão esquerda, na direita, o tablet parece agora um leque, e caminha rapidamente pelo tapete em direcção à costureira. Sem dizer palavra, coloca-lhe o aparelho à frente, enquanto vai passando o dedo. Depois de meia dúzia de imagens, olha para a costureira e diz: Vê o que lhe digo? Percebe? Tão depressa estão a vender trapos e bugigangas, como estão a salvar os coitadinhos, são umas empreendedoras do social, só lhe digo...


...esta costureira, que ainda respira sem dificuldades o calor acobreado de Setembro, do ano da graça de dois mil e quinze, seguirá atenta os estranhos acontecimentos do ano de mil novecentos e quarenta e nove. 

2.9.15

Dizem que somos o que escrevemos e eu penso no homem da repartição das finanças, desenhando arabescos e  poemas de amor, com tanto fulgor, em rodapés de guardanapos brancos com listas azuis e amarelas, à rapariga da pastelaria, bom apetite, obrigado, volte sempre, minha querida, meu pastel de nata, meu galão quente.