24.1.16

D. Maria ergueu-se cedo, que antes de ir à escola votar, ainda tem de passar na pastelaria da Cristina, buscar a dúzia de rissóis de camarão que encomendou na sexta-feira, tem cá o filho mais a nora de Lisboa, e a missa hoje, não se percebe porquê, que não dá jeito nenhum, é às onze e meia.

-- Então, D. Maria, já sabe em quem vai votar?
-- Ai, menina, aquilo são todos iguais, sempre os mesmos, sempre os mesmos, a gente já nem sabe se vale a pena lá ir. Todos a prometer, a prometer. Uns aldrabões de primeira.
-- Mas olhe que desta vez são muitos, há lá muitos pequenos à escolha, não tem de escolher nenhum dos grandes.
-- ...Oh... e os pequenos não são a mesma coisa?! Aquilo querem é um lugar no poleiro também. São todos iguais...
-- Algum lhe há-de agradar, nem que seja pela fotografia. 
-- Ai isso sim, menina, há lá dois ó três que a gente se arregala toda consoladinha. Uns senhores...
-- Ora nem mais, a senhora vota no que lhe parecer mais jeitoso no quadradinho do boletim. Sempre ficamos com um Presidente bonito...
-- Ai que risota, mas olhe que são os três muito bem apessoados... ainda custa a gente a decidir.
-- Já vi que a D. Maria é uma eleitora exigente...
-- Ai menina, quem nos ouvir... ainda p'ra mais eu uma velha... vou-me, que ainda tenho de ir ali à Cristina.
-- Até logo, D. Maria.
-- 'Té logo, menina.

D. Maria, esposa e mãe dedicada, uma senhora nas suas convicções, apressa o salto na calçada, dando uns jeitos no cabelo. Ontem, acabadinho de pintar e penteado pela Sandrinha, é que estava bonito. Minha Nossa Senhora dos Aflitos, que hoje vai ser tudo a correr.